Quando a Intel Capital anunciou em janeiro seus planos de se desmembrar da gigante de semicondutores Intel, a notícia surpreendeu muitos, considerando que a empresa atua como braço de investimentos de risco da Intel desde 1991.

De muitas maneiras, essa decisão marca o fim de uma era para o que alguns consideram ser a primeira empresa de capital de risco corporativo de todos os tempos. Fundada há quase 35 anos, a Intel Capital apoiou empresas notáveis de tecnologia corporativa, como DocuSign, MongoDB e Hugging Face, entre quase 2.000 outras.

Para Mark Rostick, vice-presidente e diretor-gerente sênior da Intel Capital, a transição representa uma nova oportunidade para o fundo de venture capital, ao mesmo tempo em que permite à empresa manter muitos dos benefícios que possuía enquanto estava vinculada à Intel.

Rostick ingressou na empresa em 1999, depois que um amigo da Intel Capital sugeriu que ele tentasse uma oportunidade lá. Na época, insatisfeito com sua rotina como advogado de licenciamento de tecnologia, ele aceitou o convite. Após conhecer a equipe, afirmou que faria qualquer coisa — até mesmo esfregar os pisos — para fazer parte daquele ambiente.

“Você tem a chance de trabalhar com as pessoas mais inteligentes do mundo. A parte mais difícil nos negócios é começar algo do zero e conseguir fazê-lo decolar. São pessoas incríveis, porque estão fazendo algo especial. A combinação do treinamento que recebi com a oportunidade de trabalhar com quem enfrenta o maior desafio empresarial foi simplesmente irresistível para mim.”

Ao longo de mais de duas décadas na empresa, Rostick acompanhou investimentos que ultrapassaram US$ 20 bilhões em mais de 1.800 empresas, além de ter participado de mais de 700 saídas de startups.

A ideia de que a Intel Capital pudesse se desmembrar da empresa-mãe não era nova, conforme explicado por Rostick, e já havia sido discutida diversas vezes anteriormente. O debate sempre girou em torno dos prós e contras de a empresa poder agir com mais rapidez e autonomia, contrapondo os benefícios de continuar ligada a uma gigante.

No entanto, essas conversas começaram a ganhar contornos mais sérios no início de 2024 e se concretizaram no outono passado. Rostick revelou que, junto com Anthony Lin, chefe da Intel Capital, conseguiram alinhar a equipe à ideia de trilhar um caminho independente.

“Acreditamos que nosso histórico merecia a atenção de investidores externos. Mesmo quando grande parte do setor de venture enfrentava dificuldades para concretizar saídas, obtivemos sucesso, o que nos posicionou como uma exceção”, comentou ele.

Rostick também mencionou que a saída da Astera Labs no ano passado contribuiu para o timing dessa decisão. A Intel Capital apoiava a Astera Labs desde 2018; a empresa de semicondutores abriu capital em março de 2024, alcançando uma avaliação de US$ 5,5 bilhões, e, um ano depois, viu seu valor de mercado crescer para US$ 9,8 bilhões, consolidando uma das saídas de venture-backed mais bem-sucedidas de 2024.

Esse sucesso pode ter demonstrado a potenciais investidores que a Intel Capital estava fazendo os investimentos corretos e obtendo retornos expressivos em um período em que poucas empresas apoiadas por venture conseguiam saídas relevantes. No ano passado, as saídas de empresas apoiadas por venture nos Estados Unidos totalizaram US$ 149,2 bilhões, segundo dados do PitchBook, quantidade significativamente menor se comparada a anos como 2019, com US$ 312 bilhões, mesmo ao se excluir anos atípicos como 2021, que contabilizou US$ 841 bilhões.

No entanto, não ficou totalmente claro se todos dentro da Intel Capital estavam a bordo da mudança. No nível dos diretores-gerentes, houve diversas saídas desde que as conversas sobre o desmembramento se intensificaram, entre elas a de Mark Lydon, Arun Chetty, Sean Doyle e Tammi Smorynski, profissionais que haviam atuado na empresa por mais de 20 anos, conforme noticiado inicialmente pela Axios.

Um porta-voz da Intel Capital afirmou que as recentes demissões não estavam relacionadas à notícia do desmembramento.

Essa mudança ocorre ainda em um momento delicado para a empresa-mãe, que viveu um ano conturbado. O ex-CEO Pat Gelsinger se aposentou repentinamente em 1º de dezembro, em meio às negociações sobre o desmembramento. Desde então, a empresa precisou adiar novamente a abertura de sua fábrica de chips em Ohio e decidiu não lançar o chip de IA Falcon Shores. Além disso, nomeou Lip-Bu Tan como novo CEO, o qual supostamente planeja mudanças significativas para a companhia.

Independentemente dos desafios, o desmembramento prossegue.

A expectativa é que a nova empresa se torne totalmente independente ainda no terceiro trimestre de 2025. Apesar de, por ora, a nova instituição – cujo nome ainda será revelado – ser bastante semelhante à atual Intel Capital, ela manterá a Intel como investidor âncora e continuará a investir em startups em estágio inicial em áreas como inteligência artificial, computação em nuvem, dispositivos e tecnologias de ponta, dentre outras. A captação de recursos deverá ocorrer pouco tempo após o desmembramento formal.

“Divulgamos a ideia para diversas pessoas e obtivemos uma resposta bastante positiva. Não somos ingênuos; sabemos que será um processo desafiador”, ressaltou Rostick.

O sucesso dessa nova empresa autônoma ficará a critério do mercado. Entretanto, apesar das mudanças, Rostick enfatizou que as operações continuam praticamente inalteradas.

“Estamos investindo em novas oportunidades e buscando ativamente por elas. Mantemos nosso portfólio realizando investimentos adicionais sempre que faz sentido e gerenciamos as saídas do portfólio como sempre fizemos. Quando fizermos a transição, seguiremos com o mesmo ritmo de hoje – esse sempre foi o plano.”