Uma nova análise revela a infiltração do lixo de IA no YouTube

Uma nova análise da ferramenta de vídeo Kapwing demonstra até que ponto o conteúdo de baixa qualidade gerado por inteligência artificial (IA) invadiu as listas de tendências do YouTube, especialmente nos Shorts. A Kapwing, empresa que desenvolve ferramentas de vídeo com recursos de IA, se propôs a mensurar o avanço desse “lixo de IA”. O estudo define esse termo como conteúdo produzido de forma descuidada e de baixa qualidade, usando aplicativos automatizados para aumentar visualizações, inscritos ou influenciar opiniões políticas. O termo relacionado “brainrot” designa um conteúdo repetitivo e sem sentido, que busca chamar a atenção por meio de cortes rápidos, cores chamativas e cenas absurdas, sem transmitir uma mensagem relevante.

A Espanha domina em inscritos, enquanto a Coreia do Sul lidera em visualizações

A análise identificou os 100 canais em tendência mais assistidos em cada país, acompanhando visualizações, números de inscritos e receita anual estimada. Os canais de lixo de IA da Espanha acumulam, juntos, 20,22 milhões de inscritos, o maior número entre os países, embora sejam apenas oito canais – bem menos do que no Paquistão (20), Egito (14) ou Coreia do Sul (11).

A Coreia do Sul, por sua vez, lidera em visualizações: os onze canais sul-coreanos em alta somam 8,45 bilhões de visualizações, quase 1,6 vezes mais que o segundo colocado, o Paquistão, que tem 5,34 bilhões, e 2,5 vezes mais que os Estados Unidos, com 3,39 bilhões. O país norte-americano ocupa o terceiro lugar com 14,47 milhões de inscritos nesses canais, seguido pelo Brasil, que tem 12,56 milhões.

Canais de destaque faturam milhões

O canal com mais visualizações no mundo é “Bandar Apna Dost”, da Índia, com 2,07 bilhões de visualizações. Com mais de 500 vídeos, o canal apresenta “um macaco realista em situações humanas hilárias, dramáticas e emocionantes”, muitos deles variações de cenários idênticos. A receita anual estimada é de US$ 4,25 milhões.

O título de maior conquistador de inscritos vai para o canal em espanhol dos Estados Unidos, “Cuentos Facinantes”, que conta com 5,95 milhões de seguidores. Embora lançado em 2020, o vídeo mais antigo disponível data de 8 de janeiro de 2025 e exibe conteúdo de Dragon Ball de baixa qualidade.

Logo em seguida, o canal espanhol “Imperio de jesus” se destaca com 5,87 milhões de inscritos, promovendo a ideia de “fortalecer a fé em Jesus por meio de quizzes interativos e divertidos”, ao colocar o “Filho de Deus” contra Satanás ou até mesmo contra o Grinch em cenários de escolhas binárias.

O canal sul-coreano “Three Minutes Wisdom” acumula 2,02 bilhões de visualizações e uma receita anual estimada de US$ 4 milhões, com seus 140 vídeos exibindo cenas fotorrealistas de animais de estimação fofos vencendo animais selvagens. Outros exemplos ilustram a diversidade dessa indústria de conteúdo de baixa qualidade: por exemplo, o canal “Pouty Frenchie”, de Cingapura, reuniu 2 bilhões de visualizações e parece direcionado ao público infantil, apresentando um Bulldog francês que percorre florestas de doces, devorando sushi cristal, enquanto ecoam risadas infantis.

O canal “The AI World”, do Paquistão, exibe shorts gerados por IA com imagens de enchentes catastróficas, utilizando títulos como “Poor People, Poor Family”. Embora o canal já abordasse temas semelhantes antes do boom da IA – utilizando filmagens autênticas que ainda são publicadas –, esses vídeos não alcançam o mesmo alcance dos shorts otimizados para o sensacionalismo.

De acordo com Max Read, jornalista que tem escrito extensivamente sobre o lixo de IA, a maioria dos produtores desse tipo de conteúdo vem de países de renda média, onde os salários medianos ficam abaixo do potencial de ganhos no YouTube – como Ucrânia, Índia, Quênia, Nigéria, Brasil e Vietnã.

Os dez canais de lixo de IA com maior faturamento geram juntos uma receita anual estimada em US$ 33,6 milhões, tendo o canal indiano “Bandar Apna Dost”, com seu macaco animado, no topo da lista.

Um a cada cinco Shorts é gerado por IA

A Kapwing criou uma nova conta no YouTube e documentou os primeiros 500 Shorts exibidos na página inicial. Os dados revelaram que 33% dos vídeos se enquadram na categoria “brainrot” e 21% – equivalente a 104 vídeos – foram gerados por IA. Enquanto os 16 primeiros vídeos eram livres desse conteúdo, a proporção de vídeos gerados por IA aumentou gradativamente a partir desse ponto.

Somente o Google pode afirmar se essa frequência é decorrente do algoritmo do YouTube ou se simplesmente reflete o grande volume de lixo sendo enviado à plataforma. Uma análise do The Guardian, realizada em agosto, apontou que quase um em cada dez dos canais que mais cresce globalmente no YouTube posta exclusivamente conteúdo gerado por IA.

Plataformas consolidadas enfrentam uma escolha difícil sobre o conteúdo de IA

O estudo evidencia que plataformas como o YouTube se deparam com uma decisão crucial. De um lado, está a opção de uma regulação mais rigorosa do conteúdo gerado por IA – com rotulagem obrigatória, desvalorização algorítmica ou corte na monetização para canais que postam apenas esse tipo de conteúdo.

No entanto, essa abordagem pode sufocar a inovação em IA e levanta questões complicadas: onde termina o uso legítimo da ferramenta e onde começa o lixo? Detectar conteúdos gerados por IA também representa um desafio técnico considerável, especialmente quando apenas partes do vídeo são sintéticas.

Por outro lado, ao manter o status quo, o algoritmo recompensa o engajamento acima da qualidade. Os benefícios a curto prazo são evidentes: maior tempo de visualização e aumento na receita publicitária. Da mesma forma que o Google já utiliza conteúdo de terceiros para responder diretamente às buscas, a própria plataforma poderia, eventualmente, produzir seu próprio conteúdo de baixa qualidade com o objetivo de maximizar o engajamento, retirando benefícios dos criadores e acumulando mais receita de anúncios. Com o tempo, porém, essa estratégia pode acabar por alienar tanto usuários quanto anunciantes.

Uma terceira possibilidade é que novas plataformas surjam para atender à crescente demanda por conteúdo autêntico e produzido por humanos. Um exemplo é o DiVine, um reboot da antiga plataforma Vine, que proíbe explicitamente o uso de IA e se posiciona como um espaço exclusivamente humano. Se a confiança nas plataformas consolidadas continuar a se deteriorar, essas alternativas poderão se tornar mais atraentes – tanto para criadores que procuram se destacar num mar de conteúdos de baixa qualidade quanto para usuários que buscam autenticidade. Contudo, desbancar gigantes como Google e Meta exigiria uma transformação significativa no cenário digital.