Hoje é meu trigésimo segundo aniversário e, como aparentemente é comum, foi mais um aniversário de desafios e aprendizados.

Acordei 6h da manhã com o chamado da família. O contexto de pandemia aliado com o cuidado de um neném de 8 meses com pouca ajuda presencial, tarefas da casa e um volume de trabalho nunca antes visto é um contexto que chamamos de loop infinito.

Todo dia é uma sequência de necessidades e obrigações uma atrás da outra, com pouco espaço para os desejos ou vontades.

Feliz com o parabéns em forma de mordida do meu bebê, dei início ao loop, mas o que eu não esperava é que logo hoje eu teria a oportunidade de pausar esse loop.

Nessa reflexão hoje eu quero relatar um pouco dos pequenos desafios do dia. Não porque são foram coisas expressivas, mas sim porque me fizeram finalmente compreender vários aprendizados na prática que tive nesse ano. Tive a oportunidade de agir diferente do meu ‘antes’ normal e pude vislumbrar um novo caminho para frente.

O intuito ao compartilhar isso com você é trazer um pouco de esperança. Muitas vezes não temos clareza em nossos loops que podemos nos desvincular do peso que eles trazem.

Sair do loop não precisa significar não mais precisar fazer todas as tarefas ou obrigações do dia seguinte. Se o peso não está mais lá e há esperança, aos poucos vamos moldando as coisas para melhor.

Assumir a Responsabilidade

Logo de manhã – depois de lavar toda a louça, preparar o café da manhã e fazer meu filho dormir – comecei a trabalhar. Analisei e-mails, respondi mensagens no WhatsApp e comecei a atender a pedidos de clientes.

Aproximadamente 15 minutos depois, minha esposa chega com o meu celular dizendo que a tela começou a ficar estranha e apagar.

Peguei o celular, tentei ligar e…nada. Tela toda preta. Balancei um pouco ele e apareceu bem leve um vulto do que deveria ser o conteúdo por trás.

Me vi naquela situação de desânimo, mas comecei a procurar a solução.

Entrei no chat de suporte e fui atendido por uma pessoa que mais parecia uma máquina pelo nível de empatia. Em certo momento me pediram pra desligar forçadamente o celular e, naturalmente, ficou ainda pior a partir do momento que nem no WhatsApp web agora eu teria acesso.

O WhatsApp pra mim é a principal ferramenta de comunicação com meus clientes. Uma boa parte dos meus atendimentos é feito pelo app e estava esperando diversas respostas sobre vários projetos.

A solução do atendente foi de levar o celular para a assistência técnica, que era dentro de um shopping a uma hora de carro da minha casa pelo menos.

Ou seja, o level dois do desanimo começou a se instaurar junto com um aroma de mal humor.

Em uma situação normal, seria o pretexto perfeito para um dia de reclamações, de estresse e de por culpa de tudo em outras pessoas.

No entanto, tive um momento de lucidez para recalibrar.

Pensei:

“É só um celular. Está na garantia. Não é o fim do mundo atrasar trabalho e se não conseguir me comunicar vai ficar tudo bem também. O que eu posso fazer para resolver?”

E nesse momento o ciclo vicioso dá meia volta e se torna um ciclo virtuoso.

É uma mudança sutil. Eu ainda estava chateado e cansado. Mas agora minha mente não estava mais querendo por a culpa em alguma coisa ou em alguém – nem em mim mesmo.

Agora o foco estava na solução.

Tentei, com a ajuda da minha mãe via videoconferência, ligar pra várias assistências técnicas mais perto e nada. Na verdade, nem a loja que a própria Samsung recomendou no chat atendia o telefone.

Então descobri uma que, no mínimo, estava aberta e era uma referência no site da empresa.

Beleza, peguei o carro e fui.

Chegando no local, me deparo com uma fila enorme de pessoas esperando para serem atendidas. Em tempos normais já não é uma visão muito agradável. Povo todo no sol com aquela cara que parece que estão pensando “eu sou uma ameba” para ver se o tempo passa mais rápido.

Agora, em tempos de pandemia uma aglomeração dessa tem um problema ainda maior.

Fiquei ali alguns minutos e uma intuição me disse pra sair fora.

Ouvi a intuição e desisti. Seja lá o que for pra ser esse dia, não acho que duas horas numa fila no sol vai ser a coisa mais agradável a se fazer.

Retornei ao carro e me resolvi fazer novamente os procedimentos de resetar, desligar ou o que for com os botões de volume e de ligar.

Em duas tentativas o celular voltou a funcionar.

Voltei pra casa feliz.

Aprendizados

Essa pequena parte do meu dia me mostrou duas coisas importantes sobre meu novo eu que só quero aperfeiçoar.

Em primeiro lugar, em momentos de dificuldade, desânimo ou estresse podemos seguir dois caminhos:

Podemos achar alguém ou algo para culpar ou podemos assumir a responsabilidade ignorando a culpa.

No fundo, em muitas situações – em especial mundanas – não importa de quem é a culpa. O celular quebrou, alguém bateu no carro, a energia acabou e queimou um aparelho.

Apontar o dedo e – pior – quer dar uma lição para alguém é tão efetivo para resolver o problema quanto não fazer nada.

No entanto, é bem mais fácil apontar a culpa do que agir para resolver. Se a culpa está com alguém ou em algum outro lugar, então temos uma desculpa para não fazer nada.

Assumir a responsabilidade pela resolução do problema, ao contrário, significa não se importar com essa desculpa e, de fato, avançar com a vida para uma situação melhor.

Há situações que não temos os privilégios ou capacidade de resolver os problemas, naturalmente, mas na maior parte das situações do dia-a-dia eu acho que podemos trazer esse questionamento.

Já o segundo aprendizado tem a ver com o apego. Não sei te dizer quantas vezes eu tomei uma decisão e fiquei apegada a ela por horas, dias, meses ou até anos sem que aquilo fosse uma coisa boa pra mim de fato.

Seja por orgulho ou pelo sentimento de tempo perdido, tem horas que é realmente difícil dar meia volta e abandonar uma decisão.

No momento que cheguei na assistência técnica eu poderia ter pensado:

“Fiz todo o trabalho de vir pra cá. Não importa se esteja bom ou ruim, eu vou ser atendido.”

O resultado, provavelmente, se tivesse ficado lá seria ainda mais frustração. Depois de duas horas no sol, com fome, sede e incomodado com a proximidade das pessoas, seria atendido por alguém que em 2 minutos ligaria o celular e diria que está normal. Ficaria bravo, colocaria culpa no produto ruim, voltaria pra casa ainda mais nervoso, isso influenciaria o bem estar de todos na família e por aí vai.

No entanto, ao reconhecer que minha decisão de ir foi boa mas que a situação não estava favorável, dar a meia volta envolve reconhecer o pouco tempo perdido e o esforço mas dizer pra mim mesmo que não preciso levar adiante.

Quantas vezes ficamos em situações ruins por medo da mudança, comodidade, orgulho, etc?

Ter essa tranquilidade de voltar atrás é importante.

Quem eu quero ser

Depois de voltar pra casa, comer mais aliviado e trabalhar um pouco. Resolvi encontrar com um amigo que veio de outro país. Não só um amigo, mas quase um irmão pra mim. Em especial, ele ainda não conhecia o neném, então estava ansioso para o encontro – afinal ele até fez uma quarentena para ver as pessoas mais vulneráveis e queridas.

Fomos até lá e foi um momento muito bacana. Vê-lo com o neném foi incrível e fiquei muito feliz.

Ao mesmo tempo, depois de um tempo conversando percebi que tanto eu quanto minha esposa estávamos apenas falando de cansaço, medo da pandemia ou coisas um tanto quanto negativas.

Ele, com uma paz, foi conversando e nos tranquilizando também trazendo novas maneiras de pensar sobre as coisas, mas ao final uma frase dele acabou me incomodando. Para dar tchau, ele disse:

“Acho que falamos tanto de cansaço que me bateu aqui e tô morrendo de sono. Vamos?”

Não me dei conta de que era um problema aquilo, mas um sentimento estranho começou a aparecer.

No carro minha esposa comentou que ficou muito feliz que a energia positiva dele a ajudou a mudar a frequência para algo mais esperançoso e que foi muito bacana pra ela.

Pra mim, porém, só estava aquele sentimento ainda ruim, mas foi exatamente ao tentar me expressar para ela que percebi:

“Eu acho que estamos agindo com o tipo de pessoa que eu não gostaria de estar perto.”

E aí caiu a ficha.

Aprendizados

Eu costumo falar que devemos buscar pessoas bacanas para compor nossa rede de amigos e por aí vai. Ao mesmo tempo, que devemos ser indivíduos que elevam a média, a frequência e a positividade dos ambientes que estamos.

No entanto, naquele momento me vi sendo exatamente o contrário. Alguém que foca suas interações no negativo, no difícil e na falta de esperança.

Se abrir e compartilhar como sente quanto estamos pra baixo é algo excelente. Significa ser vulnerável e aberto pra mudança.

Mas repetir frases prontas de desânimo, cansaço ou negatividade não é bacana.

“Nossa, num tenho tempo pra nada.”

“Tô todo doendo, você também? É a idade ne?”

“Mas você não fica com medo não? Tal pessoa morreu.”

“Tal pessoa é irresponsável! Eu ficaria com medo de estar com ela.”

E por aí vai…

São frases que podem até fazer sentido, mas a partir do momento que viram frequentes como um refúgio para todo assunto, aí temos um problema.

Perceba em interações com outras pessoas. Há algumas que, ao final de uma conversa, você se sente esperançoso(a) e feliz. Com outras pessoas negativo(a) e sem perspectiva.

Depois tente analisar o que cada uma dessas pessoas dos dois grupos te disse. Muito provável você não vai identificar uma única coisa, mas sim observar um constante direcionamento para pontos de vista ou positivos ou negativos das situações.

Eu quero ser o tipo de pessoa que sempre leva as coisas para o lado esperançoso e positivo. O tipo de pessoa que evita julgar e quer ser empático com o outro.

Mais um ano

Se na virada do ano pensamos naquilo que desejamos para um novo ano, nos nossos aniversários pode ser um momento interessante de refletir sobre o que desejamos para nós intimamente.

A pessoa que temos no nosso imaginário e no desejo do que gostaríamos de ser é a pessoa que somos? E por que não é?

Raramente nosso ideal vai bater com nossas ações e, curiosamente, tive uma oportunidade e fechar o dia de hoje declarando o tipo de pessoa que desejo ser com uma simples ação.

Fui tomar meu banho e, ao final, resolvi esfriar a água. Mantive o chuveiro ligado, mas deixei a água mais fria. Afinal, é mais fácil ficar com a água só fria do que tentar um banho gelado.

Aí pensei:

“A pessoa que desejo ser faria isso?”

A resposta, obviamente, foi não. A pessoa que eu desejo ser gosta de treinar seu músculo da força de vontade, sua resiliência e capacidade de estar fora da zona de conforto.

Então desliguei completamente a água e, surpreendentemente, tive um banho gelado menos sofrido do que imaginava.

Divirta-se!