Neste sábado (19 de setembro), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou em um post no Truth Social que vai criar uma “AI Force”, inspirada na Space Force, e nomear em breve um “czar de inteligência artificial” para coordenar a política do governo americano sobre o tema. O anúncio marca a primeira movimentação formal da Casa Branca desde que o cargo equivalente ficou vago, em março. Ele ocorre na mesma semana em que a Califórnia e o CEO da Anthropic, Dario Amodei, sinalizaram mais cautela regulatória sobre IA, na direção oposta.

O que Trump anunciou

No post, publicado na rede social que ele mesmo fundou, Trump afirmou que pretende criar a “AI Force” seguindo o modelo da Space Force, o ramo das Forças Armadas dos Estados Unidos dedicado a operações espaciais, criado durante seu primeiro mandato, em 2019. Segundo o presidente, a nova estrutura terá esse precedente como referência: “For this purpose, I am forming the AI Force, much like I did Space Force, which has been a tremendous SUCCESS, in my First Term” (“Para esse fim, estou formando a AI Force, assim como fiz com a Space Force, que foi um tremendo SUCESSO no meu primeiro mandato”).

Trump também disse que pretende nomear um “czar de IA” para o cargo, mas não indicou nenhum nome até o momento da publicação do anúncio. No jargão do governo americano, um “czar” é um assessor de alto escalão, indicado diretamente pelo presidente, que coordena uma área específica de política pública sem precisar passar por confirmação do Senado. É diferente de um cargo de secretariado, equivalente a um ministério no Brasil. A única exigência explicitada por Trump para o cargo foi qualificação intelectual: segundo o post, “Only High I.Q. individuals need apply!” (“Só indivíduos de QI elevado podem se candidatar!”).

Sobre o tom que a política do governo deve adotar em relação à indústria de IA, Trump foi direto: “We will not in any way hinder or stifle the Growth of this incredible Industry. Rather, we will cherish it, help it, and watch over it, as it grows!” (“Não vamos, de forma alguma, impedir ou sufocar o crescimento desta indústria incrível. Ao contrário, vamos acarinhá-la, ajudá-la e cuidar dela conforme ela cresce”). Ele completou: “However, we will also be looking for BAD, and we can do that, very easily, with our already existing Criminal and Civil Justice System” (“No entanto, também vamos ficar de olho no que for RUIM, e podemos fazer isso facilmente com o sistema de Justiça criminal e civil que já existe”). Na prática, o presidente sinalizou que a fiscalização de eventuais abusos ligados a IA deve recair sobre o sistema judicial já existente. Ele não propôs uma nova camada regulatória específica para o setor.

O anúncio também reservou uma crítica direta às preocupações de segurança levantadas por pesquisadores e por parte da própria indústria de IA: Trump classificou esses alertas como “hoax” (farsa, em tradução livre). Segundo a cobertura da imprensa americana, a comparação remete a outras alegações que ele costuma descrever como fabricadas por adversários políticos.

Por que isso importa

O anúncio preenche um vácuo que já durava seis meses. A Casa Branca teve um cargo equivalente, de “czar de IA e cripto”, ocupado por David Sacks. Ele deixou a função formal em 26 de março de 2026, ao atingir o limite de 130 dias permitido para um “special government employee”, e passou a copresidir o Conselho de Assessores em Ciência e Tecnologia do presidente (PCAST). Desde então, o governo americano não tinha uma figura designada especificamente para centralizar a política federal sobre inteligência artificial.

O momento do anúncio também chama atenção pelo contraste com o que acontecia, na mesma semana, em outras frentes. Na Califórnia, o governador Gavin Newsom assinou, em 18 de setembro, uma ordem executiva para acelerar a supervisão independente de sistemas de IA e avançar a criação de um “kill switch” para modelos de fronteira; um grupo de especialistas foi convocado para recomendar mudanças na lei estadual até 16 de novembro. Em paralelo, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um ensaio, também em 19 de setembro, propondo um plano de três etapas para desacelerar a corrida da indústria de IA por motivos de segurança.

Esses dois movimentos coincidem no tempo com a fala de Trump chamando as preocupações de segurança de “hoax”: de um lado, um estado americano abrindo uma via regulatória própria; do outro, uma das empresas mais influentes do setor pedindo publicamente mais cautela. A resposta federal anunciada por Trump caminha em direção diferente de ambas. Ele enfatiza não “sufocar” o crescimento da indústria e delega a fiscalização de eventuais problemas ao sistema de Justiça já existente, sem propor uma nova camada regulatória setorial.

O que observar a partir daqui

Por ora, o anúncio de Trump é uma declaração de intenção, não uma medida com estrutura definida. Dois pontos concentram a atenção da imprensa americana daqui para frente. O primeiro é quem será nomeado para o cargo de czar de IA. A Casa Branca não indicou um nome, e a única pista dada pelo próprio presidente foi o critério de “QI elevado”, sem detalhar atribuições, orçamento ou prazo de nomeação. O segundo é como a criação da “AI Force” vai se materializar na prática. Trump apenas mencionou o paralelo com a Space Force, sem detalhar se a nova estrutura terá caráter militar, civil ou híbrido, nem qual órgão vai abrigá-la.

Também vale acompanhar a reação da própria indústria de tecnologia. A fala de Trump sobre não “sufocar” o crescimento do setor tende a ser bem recebida por empresas que resistem a regulação mais rígida. Mas o mesmo anúncio, ao descartar como “farsa” as preocupações de segurança levantadas por parte da indústria, contradiz diretamente vozes como a de Amodei. Ainda não está claro como esse contraste vai se traduzir em política concreta, nem se o eventual czar de IA vai buscar algum meio-termo entre crescimento acelerado e mitigação de riscos.

Fontes