RFK Jr. diz que IA aprovará novos medicamentos na FDA “muito, muito rapidamente”

Robert F. Kennedy Jr. apareceu no episódio mais recente do podcast de Tucker Carlson na última segunda-feira, repleto de divagações de um homem completamente desconectado da realidade. Kennedy, que já defendeu teorias infundadas sobre vacinas e chegou a afirmar, de forma equivocada, que Anthony Fauci deveria ser preso, agora diz que a inteligência artificial (IA) permitirá que a Food and Drug Administration (FDA) aprove novos medicamentos em tempo recorde – um cenário caótico para um órgão que deveria prezar pela segurança.

Essas ideias absurdas seriam menos preocupantes se viessem de um simples interlocutor marginal em um programa polêmico. Contudo, Kennedy ocupa o cargo de Secretário de Saúde e Serviços Humanos, tendo recebido extraordinário poder sobre o sistema de saúde dos Estados Unidos, concedido pelo presidente Donald Trump.

Um dos momentos mais alarmantes da entrevista ocorreu quando Kennedy discutiu o papel que a IA teria na substituição ou reformulação do sistema VAERS (Vaccine Adverse Event Reporting System). Esse sistema permite que médicos relatem incidentes em que acreditam que um paciente foi prejudicado por vacinas. No entanto, Kennedy não está satisfeito com o VAERS, insistindo que ele “foi projetado para falhar” e não registra o número suficiente de pessoas que, segundo ele, teriam sido prejudicadas ao longo dos anos.

“Vamos mudar absolutamente o VAERS e criar, seja dentro dele ou como um sistema suplementar, um mecanismo que realmente funcione”, afirmou Kennedy. “E, você sabe, o sistema atual já está ultrapassado, porque agora temos acesso à IA.”

Durante sua conversa com Carlson, o secretário afirmou que estava promovendo uma “revolução da IA” no Departamento de Saúde e Serviços Humanos e que estava atraindo os melhores profissionais do Vale do Silício – aqueles que abandonaram negócios bilionários – para melhorar o sistema de saúde, sem buscar prestígio ou poder.

“Estamos na vanguarda da inteligência artificial”, declarou. “Estamos implementando essa tecnologia em todos os nossos departamentos. Na FDA, estamos acelerando as aprovações de medicamentos, de forma que não seja necessário usar primatas ou até mesmo modelos animais. Você pode aprovar medicamentos de forma muito, muito rápida com a ajuda da IA.”

Embora Kennedy já tenha comentado anteriormente sobre a utilização da IA para aumentar a eficiência na FDA, ele não detalhou quais ferramentas serão empregadas ou como exatamente serão integradas ao processo de aprovação de novos medicamentos. Considerando a instabilidade e as falhas frequentemente observadas em tecnologias de IA generativa, delegar a aprovação de medicamentos a sistemas automatizados é, no mínimo, uma ideia bastante inquietante.

Além disso, o ex-fundador do Children’s Defense Fund, um grupo anti-vacina, repete em diversos momentos da entrevista que as vacinas nunca foram estudadas de maneira adequada – uma afirmação que não encontra respaldo na vasta literatura científica. Agora, ao deter o poder de solicitar investigações sobre vacinas, Kennedy pode, de fato, buscar resultados que corroborem as suas convicções, ignorando o valor dos estudos realizados por especialistas.

“Precisamos parar de confiar nos especialistas, certo?” comentou o secretário. “No início da COVID, nos disseram para não buscar os dados por conta própria, não realizar investigações, apenas confiar nos especialistas. E confiar cegamente nos especialistas não é uma característica da ciência nem da democracia; é uma característica da religião e do totalitarismo.”

Ele também incentivou que as pessoas “façam sua própria pesquisa”, um discurso recorrente entre os defensores do movimento “Make America Healthy Again”. Contudo, essa visão deturpa o papel dos especialistas, que, em muitos casos, apresentam os fundamentos necessários para a compreensão de questões complexas de saúde, muito além dos comentários soltos em programas de televisão.

Durante a entrevista, Kennedy foi confrontado com perguntas incisivas, como a de saber se ele acreditava que a vacina contra a COVID teria causado mais mortes do que salvado vidas. Apesar de evitar dar uma resposta direta, ele insinuou que os estudos realizados por sua própria agência eram “subpar” e mal projetados para medir tais efeitos, sugerindo uma supressão deliberada de discussões sobre os danos das vacinas.

Em outra passagem, o secretário usou dados confusos dos ensaios clínicos da vacina da Pfizer para insinuar uma eficácia “100%”, sem, no entanto, apresentar qualquer evidência científica consistente para embasar tal afirmação.

Além disso, quando questionado sobre a possibilidade de processar Anthony Fauci por crimes não especificados, Kennedy sugeriu a criação de uma “comissão da verdade” para a COVID – semelhante às comissões de verdade e reconciliação que ocorreram na África do Sul e na América Central sob regimes autoritários –, na qual aqueles que depusessem honestamente seriam beneficiados com imunidade, enquanto os que se recusassem poderiam ser processados criminalmente.

Kennedy também insinuou que Fauci esteve envolvido na “armação” da pandemia de COVID e, supostamente, colaborou com o governo chinês, alegando que ele financiava pesquisas no laboratório de Wuhan, fornecendo a tecnologia necessária para tais experimentos.

Embora o secretário não tenha se aprofundado nos aspectos espirituais de seu movimento MAHA nesta entrevista – tema que abordou em aparições anteriores –, ele fez referência à importância de uma força superior, afirmando que “Deus nos fala através dos peixes, dos pássaros, das folhas; tudo são mensagens do nosso criador.”

Casey Means, indicada por Kennedy para o cargo de Cirurgião-Geral, também tem participado de podcasts defendendo pontos de vista semelhantes e ressaltando a importância da espiritualidade para a saúde. Resta saber se Means será confirmada pelo Senado dos Estados Unidos. Recentemente, Kennedy anunciou a proposta de que todos os americanos utilizem um dispositivo vestível para monitorar sua saúde – uma iniciativa que, curiosamente, tem relação com os produtos comercializados por Means para monitoramento de glicose, destinados, em sua maioria, a consumidores que não necessitam desse tipo de controle.

Ao final da entrevista com Tucker Carlson, fica um alerta para os espectadores: ouça, mas questione, pois os argumentos apresentados apresentam sérias inconsistências e desafiam o bom senso. A recomendação é analisar as informações à luz dos dados científicos e não se deixar levar por declarações sem fundamento, mesmo quando são proferidas por alguém que ocupa um cargo de extrema responsabilidade.