A empresa de vigilância e análise Palantir publicou recentemente um “breve” resumo em 22 pontos do livro “The Technological Republic”, de autoria do CEO Alexander Karp e do chefe de assuntos corporativos Nicholas Zamiska. Lançado no ano passado, o livro foi descrito pelos autores como “o início da articulação da teoria” por trás do trabalho da Palantir. (Um crítico chegou a afirmar que se tratava “não de um livro propriamente dito, mas de um material de vendas corporativo”.)
A orientação ideológica da empresa vem atraindo um olhar mais atento desde então, principalmente após debates envolvendo a atuação da Palantir junto à Imigração e Alfândega (ICE) e seu posicionamento como organização dedicada à defesa “do Ocidente”.
Recentemente, democratas do Congresso enviaram uma carta à ICE e ao Departamento de Segurança Interna exigindo mais informações sobre como ferramentas desenvolvidas pela Palantir e por “uma série de empresas de vigilância” estão sendo utilizadas na estratégia agressiva de deportações da administração Trump.
No post, a Palantir não faz muitas referências diretas a esse contexto ao explicar que o resumo foi disponibilizado “porque nos perguntam com frequência”. Em seguida, a publicação sugere que “Silicon Valley tem uma dívida moral com o país que possibilitou seu surgimento” e declara que “e-mail gratuito não é suficiente.”
“A decadência de uma cultura ou civilização, e de sua elite, só será perdoada se essa cultura for capaz de oferecer crescimento econômico e segurança para o público”, afirma a empresa.
O manifesto é amplo e, em determinado momento, critica uma cultura que “quase dá risadinhas em relação ao interesse de [Elon] Musk por grandes narrativas”. Em outro ponto, a publicação toca nos recentes debates sobre o uso da inteligência artificial pelo setor militar.
Durante um evento realizado em San Francisco, de 13 a 15 de outubro de 2026, a Palantir afirmou: “A questão não é se armas com inteligência artificial serão construídas; a questão é quem as construirá e para qual finalidade. Nossos adversários não vão se deter em debates teatrais sobre os méritos do desenvolvimento de tecnologias com aplicações críticas para a defesa e a segurança nacional. Eles seguirão em frente.”
De forma similar, a empresa sugere que “a era atômica está chegando ao fim”, enquanto “uma nova era de dissuasão baseada em inteligência artificial está prestes a começar.”
O post também denuncia “a castragem pós-guerra da Alemanha e do Japão”, afirmando que “a desarmadura da Alemanha foi um excesso de correção pelo qual a Europa está pagando um preço alto” e que “um compromisso similar e altamente teatral com o pacifismo japonês” poderá “ameaçar alterar o equilíbrio de poder na Ásia.”
O manifesto conclui com uma crítica à “tentação superficial de um pluralismo vazio e oco”. Na visão da Palantir, uma devoção cega ao pluralismo e à inclusividade “oculta o fato de que certas culturas e, inclusive, subculturas… produziram maravilhas. Outras se mostraram medianas e, pior, regressivas e prejudiciais.”
Após a divulgação do post, Eliot Higgins, CEO do site investigativo Bellingcat, comentou de forma irônica que era “extremamente normal e aceitável para uma empresa fazer essa declaração pública”.
Higgins ainda argumentou que há mais no post do que uma simples “defesa do Ocidente” — segundo ele, o manifesto também representa um ataque a pilares fundamentais da democracia que precisam ser reconstruídos: verificação, deliberação e responsabilização.
“Vale também esclarecer quem está fazendo essas argumentações. A Palantir vende software operacional para agências de defesa, inteligência, imigração e polícia. Esses 22 pontos não são uma filosofia abstrata; eles correspondem à ideologia pública de uma empresa cuja receita depende diretamente da política que defende.”
