OpenAI, Anthropic e Google DeepMind vêm conversando há semanas sobre como coordenar medidas de segurança de inteligência artificial, e cogitam criar um órgão de padrões do setor para auditar e testar modelos, segundo Bloomberg, CNBC e TechCrunch. Em 23 de setembro, o plano ganhou nome, um candidato a CEO e um prazo: segundo a The Information, as três empresas avançam para criar a Standards Authority for Frontier AI (SAFA) e já abordaram Sriram Krishnan, ex-assessor de IA da Casa Branca, para chefiá-la.

Principais pontos

  • OpenAI, Anthropic e Google DeepMind já discutem coordenação em segurança de IA há várias semanas, segundo a própria OpenAI.
  • As empresas avaliam criar um órgão de padrões do setor para testar e auditar modelos de IA.
  • Sam Altman defendeu essa organização em uma reunião interna, mas disse acreditar que ela precisaria nascer sem apoio do governo dos EUA.
  • Atualização (24/09): o órgão já tem nome provisório, Standards Authority for Frontier AI (SAFA), inspirado na FINRA do mercado financeiro americano, e as empresas abordaram Sriram Krishnan, ex-assessor de IA da Casa Branca, para ser CEO. A meta é lançar o órgão no fim de 2026 ou início de 2027.
  • O movimento se soma a outras tentativas recentes de autorregulação do setor, num momento de pressão crescente de ex-pesquisadores e do Congresso americano.

O que aconteceu

Em 15 de setembro de 2026, Chris Lehane, chefe de política global da OpenAI, confirmou publicamente, numa terça-feira, que o engajamento da empresa com Anthropic e Google já vinha acontecendo havia várias semanas. Segundo o relato de Lehane, a OpenAI está trabalhando em passos para lidar com questões de segurança de IA em conjunto com as duas rivais, numa escalada dos esforços do setor diante da preocupação crescente de que a tecnologia representa ameaça econômica e de segurança.

Uma das ideias discutidas entre as três empresas, segundo a reportagem, é a criação de um órgão de padrões da indústria dedicado a auditar e testar os modelos de IA de forma independente das próprias companhias que os constroem. A proposta ainda está em estágio de conversa, não de execução, mas já foi endossada publicamente por Sam Altman: em uma reunião geral da OpenAI (town hall), o CEO disse ser favorável a uma organização de teste e auditoria para o setor. Altman, no entanto, foi específico sobre um ponto: acredita que os grandes laboratórios de IA teriam que criar esse órgão por conta própria, sem esperar apoio do governo dos Estados Unidos. A PYMNTS também noticiou as mesmas conversas sobre o órgão de padrões.

Atualização: o nome, o CEO cotado e o cronograma

Uma semana depois da confirmação inicial, o plano avançou de conversa genérica para proposta concreta. Segundo a The Information, que citou fontes a par das negociações em reportagem publicada em 23 de setembro de 2026, Google, OpenAI e Anthropic seguem adiante com os planos para o órgão de padrões, que poderia ser lançado no fim de 2026 ou início de 2027. O nome provisório é Standards Authority for Frontier AI, ou SAFA, mas as empresas ainda não anunciaram publicamente composição, poderes ou padrões técnicos do órgão.

O modelo de referência citado nas conversas é a FINRA (Financial Industry Regulatory Authority), autoridade autorregulatória do mercado financeiro americano que fiscaliza corretoras sem ser, ela mesma, uma agência de governo. Entre os pilares em discussão para a SAFA estão avaliações técnicas compartilhadas entre as empresas, auditorias antes do lançamento de novos modelos, frameworks independentes de teste e protocolos padronizados de segurança.

Para chefiar a organização, as três empresas abordaram Sriram Krishnan, que atuou como principal assessor de política de IA da Casa Branca no governo Trump entre janeiro de 2025 e junho de 2026, e antes disso foi sócio-geral da Andreessen Horowitz. Krishnan já defendeu publicamente uma postura de baixa regulação estatal para IA: em entrevista ao Financial Times em 3 de julho de 2026, pouco antes de deixar o cargo, disse que “não vai existir uma FDA para IA” sob o governo Trump (tradução livre), e que exigir das empresas um “time de advogados” antes de lançar um modelo colocaria “areia na engrenagem” do avanço da IA. Sua eventual indicação para a SAFA é um sinal sobre o tipo de órgão que as empresas pretendem construir: autorregulatório e deliberadamente fora da órbita de uma agência federal. Nomes cotados para a presidência do conselho da SAFA incluem a ex-secretária de Estado americana Condoleezza Rice e o empresário e investidor David Friedberg; entre os possíveis assessores científicos estariam Beth Barnes, fundadora e CEO da organização de pesquisa em segurança de IA METR, e Paul Christiano, hoje assessor do Center for AI Standards and Innovation, ligado ao Departamento de Comércio dos EUA.

Por que isso importa

Essa notícia se encaixa num padrão que já vinha se formando ao longo de 2026, e é esse padrão, não o anúncio isolado, que merece atenção. De um lado, o setor de IA tem produzido uma sequência de gestos de autorregulação. Dario Amodei, CEO da Anthropic, propôs um plano de três etapas para desacelerar a corrida da IA. A Microsoft criou um código interno para manter a IA sob controle humano. Agora, OpenAI, Anthropic e Google DeepMind avançam com um órgão de padrões conjunto que já tem nome, modelo de referência e candidato a CEO. São movimentos de empresas concorrentes entre si, cooperando justamente na área onde a concorrência costuma travar qualquer acordo: segurança.

De outro lado, a pressão externa sobre essas mesmas empresas está aumentando, e vem de duas direções diferentes. A primeira é de dentro para fora: pesquisadores que antes trabalhavam na Anthropic e no Google deixaram essas empresas para fiscalizar a IA de fora, argumentando publicamente que não há adultos na sala capazes de conter os riscos a partir de dentro dos próprios laboratórios. A segunda é institucional: o Senado dos Estados Unidos negocia uma lei de “dever de cuidado” para IA, que poderia inclusive bloquear o lançamento de determinados modelos.

Colocado nesse contexto, o comentário de Altman sobre dispensar o apoio do governo americano não soa como um detalhe técnico. Soa como uma escolha estratégica: se o setor construir seu próprio órgão de padrões antes que uma lei federal exista, ele chega à mesa de qualquer debate regulatório futuro já com uma estrutura própria em funcionamento, moldada pelos próprios interesses das empresas que a criaram. A escolha de um nome cotado que já rejeitou publicamente a ideia de uma “FDA para IA” reforça essa leitura. Não é a primeira vez que uma indústria tenta se autorregular para evitar ou moldar uma regulação estatal mais dura; o que chama atenção aqui é a velocidade com que isso acontece e o fato de reunir simultaneamente as três empresas mais influentes da fronteira de IA.

O que muda a partir de agora

Para o setor, a primeira coisa a observar é se essa conversa sai do estágio de discussão interna e vira algo formal, com estrutura de governança, financiamento e critérios de auditoria publicados. Um órgão de padrões só tem peso real se tiver poder de examinar modelos antes do lançamento e capacidade de recusar ou condicionar esse lançamento, algo que nenhuma das três empresas testou publicamente até aqui.

Para quem desenvolve ou usa produtos construídos sobre esses modelos, o impacto imediato é baixo: nada muda hoje nas APIs, nos termos de uso ou nos processos de avaliação de segurança já existentes em cada empresa. O que pode mudar, se o órgão sair do papel, é a existência de um selo ou certificação de terceiros que passe a ser referência de mercado, algo que hoje não existe de forma padronizada entre OpenAI, Anthropic e Google.

Para a política pública, o efeito é mais imediato e mais delicado. Se o setor conseguir apresentar um órgão de padrões funcional antes que o Congresso americano avance com uma lei mais dura, a discussão legislativa muda de “como regular a IA” para “quanto reforçar o que a própria indústria já criou”. É exatamente esse tipo de cenário que preocupa quem defende regulação estatal mais forte: uma autorregulação que chega primeiro tende a definir os termos do debate que vem depois.

O que observar a seguir

Nenhuma das três empresas confirmou publicamente, até agora, se Sriram Krishnan aceitou o convite para chefiar a SAFA, nem anunciou estrutura de governança, financiamento ou critérios técnicos definitivos para o órgão. O nome do próprio órgão segue provisório. Vale acompanhar se Krishnan confirma o cargo, se Condoleezza Rice ou David Friedberg assumem a presidência do conselho, se Anthropic e Google DeepMind confirmam publicamente o mesmo nível de comprometimento demonstrado por Altman, e se o Congresso americano reage à notícia acelerando ou desacelerando sua própria proposta de regulação. O padrão observado até agora sugere que essas respostas vão continuar chegando em etapas, não de uma vez.

Referências e notas de apuração