Se você tem mais de 30 anos, deve se lembrar que antigamente produtos não estragavam tão facilmente. Além disso, se você acompanha o desenvolvimento tecnológico, provavelmente percebeu que não estamos evoluindo na velocidade esperada e novos produtos são apenas versões levemente melhores do que anteriores. Independentemente das condições acima se aplicarem à sua realidade, a Obsolescência Programada e o Maior Aproveitamento dos produtos que consumimos é uma realidade que vivemos e nesse artigo vamos entender um pouco mais sobre o porquê devemos nos ocupar (nunca PREocupar) com isso.

Obs: Uma ótima introdução ao tema é o documentário ‘A História da Obsolescência Programada‘.

Qual é a situação?

Há alguns anos atrás uma nova tendência mercadológica apareceu, a qual trouxe consigo, ao mesmo tempo, a capacidade de produzir novas versões de produtos com mais rapidez e uma ideologia consumista baseada na troca de versões obsoletas por novas levemente melhores. Hoje em dia podemos observar muito claramente essa dinâmica como, por exemplo, os produtos da Apple. Todo ano uma nova versão de cada linha de produtos é atualizada com um design um pouco diferente e/ou melhores especificações técnicas. Bom… E há algum problema nisso?

Eu acho que tem sim. Em primeiro lugar, cada vez mais os produtos são criados para estragarem depois de um determinado tempo de uso. Recentemente precisei consertar uma máquina de lavar roupas e chamei um técnico para realizar o serviço. Ao terminar, ele me recomendou fazer uma revisão da antiquada máquina de quase 20 anos, mas perguntei se não seria melhor comprar uma nova. A resposta foi um determinado ‘não’ seguido de uma explicação que parecia óbvia sobre o quão boas são as máquinas antigas e o tanto que máquinas novas estragam depois de pouco uso. Essa explicação é dada por técnicos de inúmeros setores que compartilham sempre do mesmo discurso: “O que é velho dura mais”. Além disso, é bem comum comprar um produto e depois de alguns (poucos) anos ele não não é mais compatível com sistemas que antes eram integrados à ele. Seja a integração entre um software e um hardware (programas e os aparelhos digitais), ou uma peça que não é mais produzida para substituir uma antiga ou mesmo um serviço que deixou de ser oferecido em detrimento de outro, os exemplos são inúmeros de situações em que nos deparamos com a necessidade de comprar um novo produto.

Segundo, a ilusão de que estamos evoluindo rapidamente em tecnologias é posta como orgulho todos os anos por diversas empresas em suas conferências e expandida pela mídia que recebe informações com pouca crítica. Contudo, se distanciarmos um pouco dessa exposição e nos direcionarmos para o mundo acadêmico, o que é dito por pesquisadores e estudiosos conflita com essa ‘realidade’. Os centros de pesquisa estão tão avançados que muitas tecnologias que estão sendo lançadas agora foram, na verdade, criadas há mais de 10 anos atrás. Você pode estar se perguntando o porquê disso e eu vou te dizer o que é apresentado como instrução econômica dos cursos de finanças.

Melhore seus produtos de pouco a pouco para poder aproveitar de tecnologias atrasadas o máximo possível.

Você se lembra quanto tempo levamos para ultrapassar as pesadas e gigantes televisões analógicas? Foram muitos anos com televisões de Plasma sendo vendidas por preços absurdos sendo que no fundo seu custo provavelmente não era tão alto. Confesso que não procurei dados específicos sobre o preço de produção de televisões de plasma no início da década passada, mas sei que essa é uma indústria que abusa do desenvolvimento lento de suas tecnologias. Não vou dizer que é culpa da Sony, LG, Samsung, etc; pois elas também estão dependentes dos preços e avanços tecnológicos de terceiros que, por sua vez, seguem o mesmo princípio. Quem assistiu a conferência da Google i|o 2013 pôde ouvir um de seus donos, Larry Page, dizer que não está satisfeito com a evolução das tecnologias. Os motivos foram um pouco diferentes dos quais estou me referindo, mas vale a pena assistir.

A razão que acho mais importante é a relação dessa situação toda com a sociedade. Não só temos que pagar mais por produtos que estragam facilmente ou por novas versões anualmente (considerando, em muitos casos, pressões sociais), como não evoluímos com força total. Esse último aspecto nos puxa para expandir o contexto dessa lógica mercadológica da obsolescência programada e do maior aproveitamento, já que também fazem parte do sistema empresas nas áreas da saúde, meio ambiente, segurança, etc. Áreas, essas, que deveriam estar fora de uma lógica capitalista que atrasa seus desenvolvimentos e, portanto, atrasa a resolução de problemas relacionados com nossa própria existência no mundo.

Mas e aí?

Após ler até aqui, você pode me perguntar: Mas se a obsolescência programada também se relaciona à necessidade de troca de um produto para outro assim que o primeiro ou quebra ou se torna obsoleto em relação à tecnologia que não é mais compatível, então quer dizer que essa é uma tendência contrária à do melhor aproveitamento; que, por sua vez, implica na manutenção de tecnologias para às aproveitar ao máximo. Há uma contradição aqui!

Sim. Realmente neste caso parece que uma tendência resultaria em um equilíbrio com a outra, mas se olharmos com cuidado, podemos perceber que não é bem assim. Uma das táticas da obsolescência programada é fazer com que produtos percam sua compatibilidade com novos recursos ou suporte ao longo do tempo. Para exemplificar, vou usar o exemplo da Apple novamente. Em 2010 o iPad foi lançado rodando a mais nova versão do software de aparelhos móveis da empresa ( iOS 3 ) e todos estavam felizes. Dois anos e meio depois, a terceira geração do aparelho, junto com a sexta do software, entraram em destaque para deixar de lado completamente o primogênito da família já que, neste, o iOS 6 não era compatível. Não surpreendentemente, esse padrão se repetiu até o presente momento em todas as outras versões posteriores, não só para Apple mas também para a Microsoft e Google com seus respectivos aparelhos e sistemas operacionais mobile.

Naturalmente não são todas as empresas que seguem essa dinâmica. Os videogames, apesar de explorarem os jogadores de outras formas, possuem uma vida útil surpreendentemente grande comparada a outros setores. A última geração durou quase 10 anos e, apesar de haver versões melhoradas, não houve jogos que só rodavam em consoles novos; mantendo a compatibilidade. Além disso, alguns aparelhos rodam até jogos de outras gerações ( retrocompatibilidade ), então parabéns para as empresas deste ramo (pelo menos nesse sentido).

Contudo, quem realmente merece congratulações são aquelas empresas que nadam contra a corrente e fazem produtos baseados em princípios bons menos agressivos. Gosto muito de citar a OEP Electrics, que trabalha no ramo das lâmpadas na Europa e resolveu desenvolver uma lâmpada ‘infinita’. Após muitos anos de pesquisa e críticas à obsolescência programada, a OEP desenvolveu uma série de tipos de lâmpadas que possuem uma duração que é praticamente imensurável. As lâmpadas consomem 70% a menos de energia, são recicláveis, não aquecem, possuem um brilho menor, etc, etc; ou seja, são totalmente sustentáveis e compatíveis com a tecnologia atual. O único problema é que o cartel dos produtores de lâmpadas está ameaçou o presidente da empresa e, mesmo ele entrando com denúncias na polícia, a situação foi complicada.

Outro exemplo muito interessante são os celulares modulares. Phoneblocks e Project Ara, entre outros, estão na frente desse novo modelo de pensar os aparelhos móveis para que as partes sejam trocadas em pequenos blocos mais baratos, preservando um núcleo que não precisa ser trocado ao longo do tempo.Project Christine da Razer também está com o mesmo pensamento, mas voltado para os PCs. Mais fáceis de customizar para seu interesse e menor o custo de upgrade.

Há muitos outros exemplos de empreendimentos que também estão fazendo de tudo para criarem produtos sustentáveis e, não surpreendentemente, a maior parte é composta de pequenos grupos que se juntam para desenvolver a solução para um problema. Eles, então, conseguem achar uma inteligente e sustentável forma de lidar com esse problema mas acabam com o dinheiro e buscam ajuda com sistemas de Crowdfunding (investimentos coletivos); o que é excelente já que pessoas que querem algo bom e durável investem diretamente em projetos sustentáveis sem a necessidade da aprovação dos cartéis dos seus respectivos setores.

O que podemos fazer?

Como a maior parte dos problemas que observamos atualmente, a resolução dessa situação não é tão fácil e a maior parte das pessoas acha que não podem fazer nada; portanto simplesmente aceitam.

Se você é dono de uma empresa, pense um pouco sobre como você pode criar algo realmente inovador e interessante e não só um produto que tenha valor momentâneo e repetitivo para gerar um pouco mais de lucro.

Agora, caso você seja só um consumidor, então o que pode fazer é, em primeiro lugar, discutir sobre essas questões, as questionar e, sobretudo, buscar ensinar uma nova lógica para os jovens que ainda não estão acostumados a fechar os olhos para os problemas. Em segundo lugar, temos que pensar um pouco mais sobre o por quê de querermos um produto levemente diferente só para estarmos ‘atualizados’. A questão não é deixar de consumir, mas sim consumir com consciência no que diz respeito às vontades que queremos saciar e as reais necessidades/vontades que tem uma lógica para nossa vida.

Eu tenho um iPad e adoro ele, mas desde que o comprei, em 2010 (sim, o primeiro), não vi necessidade de trocá-lo já que só o uso para ler e jogar. Nunca faltou quem me dissesse para trocar, mas no final das contas não faz sentido para mim ter algo que só vai ser melhor pela velocidade um pouco maior ou peso, também um pouco, menor.

Também, no caso mais preocupante que mencionei acima (saúde, segurança, meio ambiente, etc), temos que buscar não apoiar grandes produtores de, por exemplo, remédios, cosméticos ou mesmo alimentos; os quais, após uma pequena pesquisa no google, participam dos sistemas foco desse artigo. Quem quiser uma visão — que por mais que sensacionalista é interessante — de como algumas empresas de remédios barram curas para doenças e como sistemas de saúde lidam com isso, sugiro o documentário Thrive.

Por fim, se houver duas opções na prateleira e uma é um produto que visa a durabilidade e/ou o avanço tecnológico(como a lâmpada da OEP) e o outro normal (como uma lâmpada comum), escolha com carinho.

Quero saber, agora, o que você pensa sobre isso! Deixe um comentário para podermos continuar essa discussão e, esperançosamente, achar mais soluções, compartilhar experiências, expor informações ou até criticar minhas abordagens.

Divirta-se!