Momento Decisivo da IA na ONU

Pela primeira vez na história, praticamente todas as nações reconheceram que a inteligência artificial é uma tecnologia de consequências tão enormes que não pode ser deixada sem regulação. Em um momento em que a cooperação global parece enfraquecida, 193 países optaram por agir de forma conjunta.

Esta semana, a Organização das Nações Unidas lançará duas novas instituições aprovadas por resolução: um painel científico independente para avaliar os riscos e oportunidades da IA e um diálogo global no qual governos, empresas e a sociedade civil poderão colaborar na governança dessa tecnologia.

Ao longo dos anos, trabalhando lado a lado com governos, organismos multilaterais e entidades da sociedade civil, pude observar como a ambição muitas vezes se perde na engrenagem da política. Por isso, este momento, ainda que frágil, merece uma atenção especial – e talvez até um sopro de esperança. Os países reconheceram que nenhuma nação, sozinha, conseguiria regular a inteligência artificial, abrindo espaço para a criação de instituições duradouras de governança.

Por muito tempo, os debates sobre IA foram dominados por exageros e temores, narrativas recicladas que desviam nossa imaginação e políticas. A resolução da ONU representa a primeira tentativa de romper esse ciclo ao criar instituições que possam ancorar a inteligência artificial na ciência, na evidência e na cooperação. Caso alcancem seus objetivos, elas poderão fomentar uma nova narrativa para a tecnologia: uma que sirva ao interesse público, em vez de amplificar lucros injustos ou gerar pânico.

Muitas vezes, contamos as mesmas histórias assustadoras: um magnata maligno em sua torre que constrói sistemas de IA incontroláveis, uma máquina que supera seus criadores ou um futuro utópico onde a tecnologia erradica nossas imperfeições. Cada narrativa contém um fragmento de verdade, mas juntas elas acabam por obscurecer as realidades que já estão transformando vidas, enquanto as aplicações mais significativas permanecem sem o devido destaque.

Basta observar alguns exemplos ao redor do mundo. Na Califórnia, a inteligência artificial monitora imagens de câmeras em regiões propensas a incêndios. Ao diferenciar entre a névoa matinal e uma coluna de fumaça ascendente, o sistema pode alertar os bombeiros em questão de minutos – um intervalo decisivo que muitas vezes define se um incêndio será contido ou se uma comunidade será devastada. Em Rajasthan, uma organização sem fins lucrativos desenvolveu um modelo preditivo que permite aos agentes de saúde identificar domicílios com maior risco de desnutrição, dobrando o número de crianças que recebem cuidados essenciais.

Esses exemplos demonstram como a IA pode ampliar a capacidade humana e ressaltam como possibilidades incríveis podem ser ofuscadas pelo sensacionalismo. São provas de que a inteligência artificial pode apoiar nossas ações, poupando preciosos minutos a equipes de combate a incêndios e evitando a dor de perdas evitáveis. Eles evidenciam, assim, a importância de uma governança eficaz.

Experiências passadas mostram como as narrativas mais chamativas podem dominar o cenário. Há duas décadas, as redes sociais prometiam conexão e conhecimento. Confiamos que o mercado garantiria a equidade, deixando a governança em segundo plano. Quando os efeitos se tornaram evidentes, os danos já estavam consumados, transformando conexões em comércio e acessos em publicidade.

A inteligência artificial nos oferece uma nova oportunidade. Os mecanismos da ONU não responderão a todas as questões nem, por si só, superarão estruturas de poder arraigadas. Entretanto, eles representam a base — instituições que podem evoluir, adaptar-se e persistir: um painel científico que fundamenta decisões com base em evidências e um diálogo global que garante que esses dados orientem a cooperação.

Para que bilhões de pessoas possam se beneficiar da IA, é fundamental expandir a conectividade e promover a alfabetização digital. Construir repositórios públicos de dados, algoritmos e expertise pode impedir que a base da inteligência artificial seja controlada por poucas corporações. Além disso, a governança deve refletir não apenas governos e empresas, mas também as comunidades que convivem com os impactos dessa tecnologia.

O primeiro teste virá em breve, quando o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, iniciar as indicações para o novo Painel Científico. A credibilidade desse órgão dependerá das pessoas escolhidas para integrá-lo. Se o painel for formado pelas mesmas vozes restritas – poucos governos e grandes corporações – perderá legitimidade. Por outro lado, se refletir a diversidade da expertise global, de Nairobi a Nova Délhi e a Nova York, poderá estabelecer a independência e a autoridade que este momento requer.

A credibilidade também estará atrelada à forma como a inovação em IA é financiada. Hoje, os incentivos direcionados à inteligência artificial são definidos, em grande parte, pelo capital de risco e pelos mercados privados, onde horizontes curtos e metas de lucro predominam. Esse modelo, embora recompense a velocidade e a escala, não pode assumir a responsabilidade de construir sistemas justos e equitativos. Felizmente, a ONU já explora mecanismos voluntários de financiamento para o desenvolvimento de capacidades em IA, enquanto a filantropia compromete bilhões de dólares para alinhar o capital ao interesse público. Assim, o financiamento precisa compor a infraestrutura da governança da IA.

Instituições da sociedade civil – seja através de organizações internacionais, entidades sem fins lucrativos, universidades ou grupos comunitários – são frequentemente as primeiras a reconhecer como a IA está transformando a vida cotidiana e a desenvolver soluções adaptadas às necessidades locais. Elas não são acessórios da governança; são o elo que conecta regras globais com a realidade das pessoas. Sem essa liderança, o futuro da inteligência artificial será decidido apenas por Estados e corporações.

Continuaremos a contar histórias sobre a IA, e aquelas que resistirem ao tempo determinarão o tipo de futuro que herdaremos. Se não forem regulamentadas, as narrativas familiares de medo e lucro acabarão por ofuscar as verdades mais discretas: famílias poupadas de incêndios devastadores, bebês que têm a chance de celebrar seu primeiro aniversário. Com instituições sólidas, essas histórias poderão, enfim, se enraizar.

A votação na ONU marca a primeira vez que as nações se unem na tentativa de governar a inteligência artificial. Se essas instituições se mantiverem, elas poderão demonstrar que, mesmo em tempos de divisão, o mundo ainda é capaz de construir tecnologia a serviço da humanidade.