Imagine a situação:

Você está conversando com sua parceira ou seu parceiro e percebe que ela/e não está muito satisfeita/o. Será que você falou algo que não devia? Ou será que foi o jeito que falou? Talvez até pode ser outra coisa que ela/e lembrou agora? Ou será que não tem nada errado e eu que to entendendo errado?

Essa incerteza em compreender os outros vem da nuância das nossas expressões.

Em contrapartida, imagine um neném chorando. Sua expressão indica claramente que há algo errado e que há um desejo. Seja por leite, por calor, por amor, por passar a dor ou outra necessidade, não há nuância em sua expressão. É objetivo.

Aproveitanto os exemplos, aprendemos as nos expressar por meio dos jeitos da nossa cultura à medida que vamos crescendo. Então a nuância se torna nossa própria maneira de expressar nossos sentimentos, vontades e desejos.

Nesse artigo quero explorar um pouco esse lado da nossa relação interpessoal. Não há forma certa ou errada de nos comunicar, mas é importante trazermos à consciência aquilo que fazemos de forma automática.

Cultura

Como todo traço cultural, essas nuâncias são moldes.

Quando criança, imitamos as pessoas ao nosso redor. Aprendemos a nos expressar pelos exemplos de atitudes de nossos pais, familiares, colegas e, naturalmente, mídias.

No entanto, cada um de nós interpreta os sinais e os moldes de uma maneira um pouco diferente, mesmo fazendo parte da mesma cultura e local.

Mais além ainda, não é todo mundo que entende os sinais e as nuâncias ou quem liga para elas.

Eu estudo Japonês e me lembro de uma das primeiras aulas de cultura japonesa indicando que “no Japão, tudo tem um significado por trás e todos compartilham desses entendimentos. Eles conseguem identificar se uma reverência ao se curvar é de 10, 15 ou 20 graus para entender qual o nível de formalidade ou lugar na sociedade.”

Eu lia isso e pensava:

“Que incrível, aqui no Brasil a gente não tem nada disso.”

Mas isso não é verdade. Nem o fato de que no Brasil isso inexiste quanto o fato de que no Japão todos compartilham dos mesmos entendimentos.

As nuâncias de nossas expressões fazem parte do cotidiano. Não pensamos nelas como algo específico ou as questionamos.

“É o jeito que é. É o jeito que eu entendo. É o jeito que deve ser para todos que convivo. Pois é minha cultura.”

Monólogo coletivo

A expressão (preconceituosa e na minha opinião errônea, diga-se de passagem) ‘Diálogo de Surdos‘ vem à mente nesse momento. É a forma de indicar o momento quando há duas pessoas que debatem e não conseguem entender um ao outro.

Prefiro usar o termo de Piaget ‘Monólogo coletivo’, em que há duas crianças se comunicando e nenhuma entendendo a outra.

No fundo, mesmo depois da fase infantil continuamos no monólogo coletivo.

Pensa comigo na seguinte situação:

Você está numa festa e quer demonstrar que gosta de outra pessoa. Chega perto, “faz um charme”, solta elogios, mostra interesse, etc.

O que você está fazendo é aproveitado da biblioteca de nuâncias que possui para indicar que quer outra pessoa. Você aprendeu esses movimentos e essa forma de agir assistindo filmes, lendo livros, vendo outras pessoas agirem assim nas festa e por aí vai.

Usamos de nuâncias assim para expressar nossos desejos ou necessidades. No entanto, a forma como você age é o resultado da sua interpretação individual dessas nuâncias.

A pessoa que você está tentando conquistar pode não ter a mesma interpretação que você. Pode não perceber o que está fazendo ou então intepretar erroneamente o que está tentando passar de desejo ou necessidade.

Nossa visão de mundo não é compartilhada

Certa vez estava conversando com uma pessoa da minha família e a situação estava um tanto quanto tensa.

A pessoa esperava que eu fizesse algo que, na visão dela, era o correto. Era a forma de agir. Era a única interpretação possível daquela situação.

Expliquei que se ela quisesse algo, que me falasse objetivamente o que deseja e que não esperasse que eu fosse interpretar ou advinhar.

Sua resposta foi: “Você tem que saber isso antes deu falar”.

Ou seja, na visão dela eu deveria ter o conhecimento de interpretar as suas vontades e necessidades sem utilizar o recurso da comunicação verbal. Apenas confiar na minha interpretação das nuâncias.

Eu entendo que esse é o padrão em muitas culturas, inclusive na minha vertente da cultura brasileira. Porém, não consigo concordar.

Nuância é importante. É algo que nos livra de ter que verbalizar tudo. Nos alivia de enfrentar expor nossos sentimentos de forma crua. Tem seu papel em rituais e em compreensão das situações.

Existem dezenas de estudos que apontam que a maior parte da nossa comunicação não é verbal. E claramente não é mesmo. No entanto, não significa que existe uma única forma de compreender uma expressão não verbal.

Cada um entende de uma maneira.

Por isso, tendemos a nos expressar mal, a sermos mal-entendidos, mal-interpretados e por aí vai. Não existe ser mal interpretado. Existe é que a interpretação dos outros é diferente da nossa. O que existe é que nossa comunicação não foi clara o suficiente para passar por cima das interpretações e das nuâncias.

Nuância se ensina, mas não se demanda

AS nuâncias são importantes na nossa vida, mas também é muito difícil nos fazer ser entendidos pelos outros sem uma comunicação clara.

Por isso, gosto de pensar que nuância é algo que podemos aprender e pode ser ensinado quando crescemos. No entanto, não é algo que pode ser demandado.

O que quero dizer com isso é que não podemos exigir que os outros nos compreendam da maneira como nós compreendemos nossa comunicação.

Como uma professoa minha já dizia no Ensino Médio:

“Depois que um autor lança seu livro no mundo, o livro não é mais dele”. Em especial, ela disse isso depois que um autor errou a própria questão de interpretação de seu livro no Vestibular.

Sempre que algo é importante, devemos buscar nos expressar da maneira mais clara possível. A buscar por sinceridade e por verdade em nossa forma de comunicação vem da compreensão de que podemos ser sempre mal-entendidos, então é melhor tentarmos ser claros.

Além disso, é preciso ter humildade para reconhecer que não controlamos a interpretação dos outros e que, se queremos ser entendidos, deve partir de nós sermos mais claros e objetivos.

Conclusão

Você acha que esse texto está claro? Espero que sim, mas provavelmente há dezenas de nuâncias que nem eu mesmo percebi que estão aqui. No entanto, está tudo bem pois quero exatamente debater com você sobre esses pontos.

Comenta abaixo suas impressões e vamos tentar nos expressar e entender com clareza.

Divirta-se!