Em 2008 me tornei freelancer. Foi meio sem querer e nem sabia ainda com o que eu ia trabalhar, mas sabia que não queria ser um trabalhador de 9h~18h. Hoje me considero tranquilo e confiante, mas vou compartilhar o que desde sempre foi e ainda é minha maior dificuldade como freelancer ou profissional autônomo – dependendo de como prefere chamar.

Como já mencionei em um outro artigo aqui no blog, a vida como freelancer tem seus pontos bons e outros nem tanto. De um lado somos nosso próprio chefe, do outro somos o comercial, financeiro, produção, TI, design, marketing, etc da nossa eupresa.

Vou começar esse artigo relembrando e acrescentando em alguns pontos, mas tudo se conecta no final.

Liberdade de escolha

Poder acordar a qualquer hora, comer a qualquer hora e fazer de uma quarta-feira comum um feriadão são alguns dos benefícios com os quais até hoje ainda me empolgo. Nada como simplesmente não ter ninguém além de nós mesmos para nos guiar.

O mais interessante é que uma pequena dificuldade que eu costumo enfrentar é a rotina. Por um lado eu quero ter uma rotina. Acordar em uma determinada hora, comer X vezes ao dia, fazer um certo ritual matinal e por aí vai. Mas por outro lado normalmente não consigo resistir às tentações da aventura de cada dia diferente. Tem um certo charme que me atrai em simplesmente vislumbrar que tenho o tempo todo do mundo para executar uma tarefa, então posso começar a trabalhar 22h e terminar 6h da manhã num dia pois sei que posso dormir até 14h. E ao acordar eu escolho se vale ou não a pena tomar um café ou ir direto para o almoço.

Aí meu lado racional já me lembra dos estudos que dizem que esse tipo de dinâmica não ajuda muito na saúde e tento me balancear numa quase-rotina na maior parte do tempo.

Responsabilidade pelo resultado

Quem já está nesse mundo autônomo a mais tempo provavelmente já entendeu que temos que ser apaixonados por – ou saber conviver bem com – responsabilidade. Afinal, ao escolher nos posicionar como indivíduo-empresas (ou eupresas) temos o dever de manter a máquina rodando igual uma empresa.

Me lembro quando comecei a trabalhar como professor de Karate. Eu tinha um pequeno salário que já era variável pela quantidade de alunos que tinha. Uma bela introdução ao pensamento holístico que todo freelancer tem que ter já que eu tinha que trabalhar com aquisição de novos clientes, retenção dos atuais e até um marketing bem básico – além de dar as aulas.

Aí tive minha primeira lição de finanças e fluxo de caixa quando fiquei sem dinheiro no banco e com uma conta para pagar de cartão de crédito. Estava contando com uma entrada, mas não me dei conta que ela só viria depois e os juros do cartão não iam esperar eu receber.

Tive que pedir dinheiro emprestado para minha mãe e no final deu tudo certo.

Desde esse dia eu coloquei para mim que ia ter mais responsabilidade com as finanças e agir fervorosamente para que isso não acontecesse mais.

Esse é só um exemplo de responsabilidade financeira, mas com o tempo passando mais responsabilidades vão chegando. Manter uma casa, filhos, aposentadoria e por aí vai. Tudo normal seja para autônomos ou para empregados de uma empresa. A diferença é que se queremos um aumento a gente tem que criar um ao invés de pedir para o chefe.

Essa é a responsabilidade de um empreendedor ou empresário. Só que um pouco mais leve pois sem um número de empregados que também dependem do nosso sucesso. Responsabilidade pelo próprio sucesso.

Reconhecimento

Uma das partes de que mais gosto de trabalhar como freelancer é o momento em que um cliente meu me recomenda para outro. Acho que é a maior satisfação que tem pois é um reconhecimento de que meu trabalho foi bem feito. Algo que, em geral, é um reflexo de anos de estudo, manutenção da minha marca pessoal, marketing, comercial, etc.

Bem autocêntrica essa colocação, mas acaba que na grande parte das vezes é um trabalho de uma pessoa só mesmo.

Além disso, outra situação que é bem bacana é ver um serviço/produto meu gerando resultado para meus clientes. É mais uma reafirmação que estou fazendo um bom trabalho e seguindo um caminho profissional crescente já que esse tipo de resultado é cada vez mais frequente.

Eu gosto mais desse tipo de reconhecimento. É legal ler ou ouvir as pessoas falarem bem de mim ou do meu trabalho, mas ver resultado sendo gerado e depois uma recomendação é muito especial.

Escopo de produtos e serviços ofertados

Eu já mudei bastante o que eu ofereço para meus clientes. Como desenvolvedor web faço websites de todo tipo, mas já me aventurei vendendo peças de design, texto, marketing, consultoria e outros menos importantes.

Adoro pesquisar novas áreas e vou agregando o que aprendo ao que posso ofertar a um cliente. Naturalmente faço parcerias com outros profissionais mais especializados e é um processo bacana crescer com outros freelancers. Contudo, sinto que se eu sempre ofertar a mesma coisa não estarei me desenvolvendo.

Ao mesmo tempo, sei que se eu dividir minha atenção de estudo e desenvolvimento não vou ficar expert em nada. É um dilema interessante e no momento minha opinião é que ser generalista em quase tudo com uma veia mais forte no desenvolvimento web é o melhor caminho. Não garanto a mesma opinião daqui uns meses.

E isso me leva ao ponto chave do texto.

Minha maior dificuldade como freelancer

Ao longo das quatro seções do texto eu coloquei em negrito quatro frases que me levam a pensar nessa questão.

“Nada como simplesmente não ter ninguém além de nós mesmos para nos guiar” – mas…guiar pra onde?

“Responsabilidade pelo próprio sucesso” – mas…o que é de fato sucesso?

“…seguindo um caminho profissional crescente já que cada vez mais isso é frequente” – mas…o que é crescimento?

“…sinto que se eu sempre ofertar a mesma coisa não estarei me desenvolvendo” – mas…desenvolver pra que?

Ando pensando e estudando muito sobre os assuntos que nos definem como seres humanos bem-sucedidos. Em especial relacionando com o porquê de eu sempre achar que está faltando algo quando está tudo bem.

Minha maior dificuldade como freelancer é eu não saber entender se estou crescendo como profissional e, em adição a isso, às vezes me paralisar ou andar em círculos já que os caminhos são bem menos restritos do que em carreiras já estabelecidas.

Não imagino que seja muito diferente de dilemas que outras pessoas não autônomas vivenciam. Sei tanto por experiência quanto por relacionamento que empreendedores passam por questionamentos similares. Mas ainda assim é o que está tomando conta da minha mente no momento e acredito que você também pode passar por isso. Ou já passou. Ou está passando.

O mais interessante é que depois de fazer vários cursos que lidam com dificuldades e dilemas parecidos – como o Moving Up, Reaprendizagem Criativa e alguns do Mind Valley – e ler diversos livros de desenvolvimento pessoal, empreendedorismo e futurismo eu ainda não estou satisfeito.

Os fatos de:

1-      perceber minha vida profissional como capaz de qualquer feito, seja aumentar meus preços e expandir minhas ofertas ou criar o próximo Google

2-      ao mesmo tempo não entender como medir se de fato estou me transformando para um melhor profissional

estão mexendo comigo de uma maneira que o efeito final é um sentimento de distanciamento e um pouco de alienação voluntária.

Eu sei que vai passar e eu sei que provavelmente - assim como tudo na vida que não temos uma resposta mais plausível - ou um pensamento agnóstico ou uma aceitação de uma resposta acaba sendo o mais interessante.

De um lado, como agnóstico, podemos simplesmente aceitar a ignorância e viver sabendo que não vamos descobrir uma resposta; e isso está tudo bem.

De outro, podemos encontrar uma resposta que mais parece interessante e ir com tudo nela. Um exemplo aqui é a ideia de que temos que ter um propósito na vida. É uma ideia interessante e dependendo vale a pena aceitar também a ignorância de que existem outras possibilidades e nos agarrar cada um a seu propósito.

De qualquer modo, a ignorância aparece como protagonista em ambos os casos e quanto mais me conheço entendo que mais vou ter que saber lidar com ela em paz.

Conta aqui nos comentários abaixo quais são seus desafios e se faz sentido tudo isso.

Divirta-se!