E-mail – Reflexão da semana #03. Enviado em 15 de Fevereiro de 2019.

“Se você sonha em ser alguma coisa ou alguém na vida, finja até que um dia você vai perceber que se tornou”.

Olá! Ouso dizer que o famoso “fake until you make it” é aquele tipo de conceito que está presente na maior parte dos livros de autoajuda e empreendedorismo.

Afinal, o ato de agir como se já fosse alguém ou como se já tivesse algo pode ser um ponto de partida para uma mudança de comportamento importante.

E funciona…até certo ponto.

Se você não é familiarizado com o “fingir até se tornar” eu vou te explicar brevemente.

Essa expressão está presente em livros como “O Segredo” ou inúmeras palestrar no TED. Basta uma pesquisa rápida no Google para ver a quantidade de referências a esse tipo de pensamento.

A base de muitos livros motivacionais populares atualmente é que podemos mudar a forma de enxergar nossa própria existência nesse mundo. Outras pessoas (familiares, amigos, televisão) nos dizem que temos que ser um tipo de pessoa, mas devemos ter a autonomia de pensamento para nós mesmos determinarmos quem somos.

Esse princípio nos empodera. De repente pensamos:

“Eu decido quem eu quero ser!”

É um pensamento muito poderoso e estou 100% adepto ao poder que isso tem na nossa vida.

Contudo, em geral temos o seguinte dilema:

Eu sou uma determinada pessoa. Tenho esses recursos ao meu redor para me auxiliar. Tenho esses conhecimentos. Tenho essa história, esses traumas, essa bagagem.

Porém, eu quero ser essa outra pessoa. Que possui essas outras características, essa outra profissão, esses outros amigos, posses, objetivos, etc.

Então o que fazer para sair do ponto A e chegar no desejado ponto B?

Existem várias formas de encarar essa transformação, mas uma popular é simplesmente fingir que já é a outra pessoa.

Finja até que se torne.

A ideia é que se você já agir como se fosse a outra pessoa você vai acabar se tornando ela. Esse processo não é simplesmente a magia do universo. Acredito que tem pelo menos três lados que podemos considerar e que contribuem para realmente ser uma ação importante no nosso empoderamento.

1- Quando você tenta se imaginar como já sendo a pessoa que gostaria de ser, tendo as coisas que gostaria, etc, você tem um impulso de confiança e felicidade inicial que é muito importante.

2- Quando você finge, suas atitudes começam a mudar e você tem um pouco mais de empolgação e confiança para realizar ações difíceis que, elas sim, vão trazer os resultados para o desenvolvimento pessoal. Isto é, se você se imagina como fluente numa língua, talvez já comece a assistir vídeos naquela língua sem legenda e converse com outras pessoas nessa língua. Essas são ações difíceis, mas são as que mais vão trazer resultados e muitas vezes não são ações que pessoas que não se consideram fluentes fazem.

3- Fingir que já atingiu o estado desejado faz com que esse objetivo deixe de ser um ‘sonho’ e passe a ser uma etapa que pode ser atingida de verdade. Inclusive, essa ação te faz ter mais autoconfiança e determinação para conquistar o que deseja.

Tudo isso é muito válido, mas porque então dei a entender que esse método não é tão simples?

Bom, como pessoa que já utiliza desses métodos há pelo menos uns 15 anos eu posso dizer que há algumas barreiras para que isso realmente funcione e não só gere mais frustrações.

Para começar, é preciso realmente acreditar na mentira que você se conta. Não adianta falar “Eu sou o maior pianista do mundo” se nem você mesmo acredita na sua mentira.

Fingir que somos algo que não somos é um processo delicado. Temos que nos lembrar o tempo inteiro de quem desejamos ser e imaginar como agiríamos em cada situação. Isso consome uma força mental enorme e nem sempre estamos 100% bem para continuar fingindo.

Todo tipo de mudança na nossa forma de agir é dolorosa. Possivelmente vai envolver sair da zona de conforto, enfrentar medos e abrir mão de coisas que estamos acostumados. Ainda mais quando fingimos, esse processo se torna super difícil.

Segundo, no momento que colocamos na nossa cabeça que somos algo que ainda não somos, em geral acabamos agindo de forma arrogante. Eu considero que o caminho para a autoconfiança passa pela arrogância e depois se equilibra (papo para outro e-mail), mas quando fingimos ser algo que não somos esse aspecto é bem destacado.

Não há problema se nos chamarem de arrogante em algum momento desde que tenhamos um pouco de humildade guardada para depois nos questionar e melhorar.

Terceiro, algo que é super complicado é o distanciamento da realidade. Fingir o tempo inteiro e depois acreditar nas nossas mentiras é um caminho muito fácil de nos separar da realidade. De repente estamos tão crédulos em nossas mentiras que a noção do que é verdade ou real começa a ficar embaçada.

Não digo isso sobre a realidade física, mas sim sobre a nossa percepção de nós mesmos. Dependendo da situação perdemos o contato com as características que nos definem. Isso nos coloca em uma situação que nem estamos felizes com o que somos, nem sabemos mais para onde gostaríamos de ir.

Por fim, podemos cair na armadilha de fingir que somos algo que não necessariamente desejamos no nosso íntimo. Pode ser que estamos encantados por um sonho financeiro, amoroso ou profissional, mas é só depois de percorrer um tempo fingindo que somos bem sucedidos nessas áreas que descobrimos que nada disso está conectado com nossos reais objetivos e vontades na vida.

Palestrantes, autores, programas de televisão, filmes e consultores vendem visões de vidas bem sucedidas para nós o tempo todo.

Depois de ir num evento motivacional de empreendedorismo todo mundo quer ter uma startup. Ser um(a) CEO mesmo que o projeto/empresa tenha duas pessoas. Desses, muitos fingem ser empreendedores de sucesso e mergulham na vida como empresários. Passado um tempo, em especial quando os desafios da realidade batem, é que o questionamento vem se era esse mesmo o caminho a seguir.

Eu acho que o “fake until you make it” é uma forma muito válida e efetiva de mudar coisas em nossas vidas. Mudar nossos comportamentos, nossas ações e até nossos desejos.

No entando, acho que sempre vale nos questionar e nos preparar, pois nenhuma jornada é simples e cada um tem uma forma de lidar com os caminhos que nos são apresentados.

Um abraço,
André

Divirta-se!

PS: Fingir que somos outras pessoas que não nós mesmos é diferente de fingir que temos características e habilidades que podem ser desenvolvidas com um pouco de “auto-engano”.