Há uns meses eu me encontrei com um velho amigo. Eu estava cansado pela pandemia e, junto com o cuidado de um recém nascido, podemos dizer que o ânimo não era dos maiores.

Na conversa, me peguei sendo pessimista e um pouco arrogante. Ao me despedir, o primeiro pensamento que bateu foi:

“Eu acho que não gostaria de ser meu próprio amigo”.

Essa percepção foi estranha. Foi como cair a ficha de que minhas ações não estavam de acordo com a imagem da pessoa que gostaria de ser. Ou seja, me mostrou um contraste entre o meu ideal – o tipo de pessoa que eu almejo ser – e a realidade.

Foi algo muito importante para mim e gostaria de compartilhar com você também.

O Conflito

Existem duas situações que são comuns no comportamento humano:

  • A percepção distorcida de nós mesmos
  • Hipocrisia

São coisas que não costumamos admitir que fazemos, mas simplesmente fazem parte da vida.

Defendemos causas ambientais, mas não ligamos de usar plástico descartável de vez em quando. Falamos ideais políticos honestos, mas não reclamamos tanto se levamos vantagens por políticas públicas que nos beneficiam enquanto prejudicam outros. Ou então é o homem que diz não ser machista mas acha que tem direito de determinar a vestimenta da sua esposa.

É fácil nos enganar e continuamos achando que estamos certos. O ego é frequentemente grande demais para admitir que somos tão falhos quanto aqueles que julgamos.

Inclusive, recomendo o livro The Elephant in the Brain (infelizmente só disponível em Inglês no momento) que explica em detalhes essa questão.

A vida vai nos dando oportunidades para reconhecimento de falhas e aí vamos admitindo aqui e ali nossas hipocrisias e buscando melhorar. Mas sempre aparecem mais situações e a constante vigilância de preconceitos ou mesmo da nossa própria cultura é difícil demais mesmo para as pessoas mais desconstruídas.

E está tudo bem.

Esse conflito entre nossas ações e aquilo que valorizamos existe e é natural.

Aceitar que não vamos acertar sempre, mas que pelo menos vamos tentar reconhecer mais rapidamente os erros, é um bom caminho.

Estopim

Aceitamos algumas de nossas contradições aqui e outras ali à medida que temos abertura para as críticas e recomendações de pessoas que legitimamos.

No entanto, raras são as vezes que temos um momento ‘Eureka’. Um momento que descobrimos que por nós mesmos que precisamos fazer algo diferente pois o estado atual não está nos levando para um lugar bacana.

No momento que me dei conta de que estava parecendo um pessimista resmungão na conversa com meu amigo, senti vergonha. Eu sempre falo que precisamos ser pessoas mais positivas e assumir a responsabilidade pelo nosso futuro. E ali estava eu, falando que a vida ta chata, que estava super cansado e tratando isso como se fosse o assunto mais importante do momento.

Momentos assim são preciosos pois geram a maior força de mudança possível, pois é uma força que não parte de sugestão de outras pessoas nem de obrigações sociais. É uma mudança que vem de nós mesmos.

Ao chegar em casa, eu demorei um pouco mais no meu banho e fiquei refletindo sobre três pontos:

  • Como eu me vejo
  • Como eu sou
  • Como eu gostaria de ser

E rapidamente notei vários contrastes. Existiam pontos que eu estava alinhado, mas em muitos outros eu estava longe de um alinhamento.

Me via de um jeito, agia de outro e gostaria de ser algo totalmente diferente.

Um exemplo simples:

Eu li vários livros falando sobre o banho gelado como forma de melhorar vários aspectos da vida.

  • Como eu me via: A pessoa que entende sobre o assunto e recomenda isso para os outros
  • Como eu era: A pessoa que não tomava banho gelado
  • Como eu gostaria de ser: A pessoa que toma banho gelado mas não precisa ficar expondo isso com orgulho. Simplesmente tomar o banho e ser mais feliz sem que isso seja um troféu ou algo para alimentar o ego.

Fui passando por várias áreas da vida e notando esses contrastes.

No mesmo dia, desliguei o chuveiro quente e decidi tomar o tal do banho gelado.

Foi ruim?

Sim.

Valeu a pena?

Demais!

Não por causa necessariamente dos benefícios físicos e mentais ditos na literatura, mas sim porque eu alinhei um ponto dentro de mim e agi de acordo como o tipo de pessoa que gostaria de ser.

Desde então essas reflexões tem vindo com bastante frequência e tem me ajudado a colocar em cheque várias ações. Das mais mundanas até minha própria profissão.

Quero alinhamento e acho que essa é uma lição interessante para a vida.

Faz sentido? Me conta aí nos comentários.

Divirta-se!