Por que um “padrinho” da IA está deixando a Meta após 12 anos

Recentemente, um dos “padrinhos” da inteligência artificial foi homenageado no Palácio de St James, onde recebeu um prêmio do Rei Carlos pelo seu trabalho nessa área. O Professor Yann LeCun foi reconhecido, juntamente com outros seis premiados, por suas contribuições que impulsionaram o avanço do deep learning.

No entanto, LeCun tem adotado uma visão divergente em relação ao futuro da tecnologia que está moldando a nova geração. Agora, ele decidirá apostar integralmente na sua proposta de “inteligência avançada de máquina”, ao anunciar sua saída do cargo de cientista-chefe de IA na Meta para fundar uma nova empresa.

Durante seus 12 anos na companhia — sendo 5 como diretor fundador do laboratório Fundamental AI Research (FAIR) e 7 como cientista-chefe de IA — o professor conquistou o prestigiado Prêmio Turing e testemunhou diversas fases de entusiasmo em torno da inteligência artificial. Esse período incluiu o recente boom da IA generativa, impulsionado pelo lançamento do ChatGPT.

Sua saída ocorre em meio a especulações de que esse crescimento vertiginoso na área poderá chegar a um fim abrupto se a chamada “bolha da IA”, alimentada por avaliações cada vez mais altíssimas e investimentos crescentes, se desinflar. Investidores, analistas e até altos executivos de grandes empresas de tecnologia já alertaram que uma correção de mercado no setor de IA pode ter repercussões em toda a economia.

O que LeCun acredita que o mundo da IA está entendendo de forma equivocada

Após semanas de rumores e reportagens, LeCun anunciou sua decisão de deixar a Meta. Em suas postagens, o professor agradeceu ao fundador da empresa e destacou o laboratório FAIR como sua “maior realização não técnica”, ressaltando o impacto do grupo na companhia, no campo da inteligência artificial, na comunidade tecnológica e no mundo em geral.

Embora o laboratório tenha se dedicado ao desenvolvimento de sistemas e técnicas para aprimorar o aprendizado de máquina e a tradução, a Meta concentrou grande parte de sua pesquisa e investimentos em modelos de linguagem de grande porte (LLMs), que são a base das ferramentas atuais de IA generativa, como chatbots e geradores de imagens.

Para LeCun, os LLMs são limitados na tarefa de criar sistemas de IA que possam igualar a inteligência humana. Em contrapartida, ele defende a abordagem da “inteligência avançada de máquina”, que treina os modelos de IA principalmente por meio do aprendizado visual, tentando replicar o modo como uma criança ou um animal em desenvolvimento aprende, diferentemente dos LLMs que utilizam enormes quantidades de dados pré-existentes para gerar respostas.

Embora deixe seu cargo na Meta, LeCun manterá uma relação com a empresa, prevendo que ela seja parceira de sua nova iniciativa. Sua decisão reflete uma distância crescente em relação à estratégia que a Meta tem adotado no campo da inteligência artificial.

Diferentemente de outros pioneiros da IA, como Geoffrey Hinton e Yoshua Bengio, LeCun minimiza os temores de que a inteligência artificial possa representar uma ameaça existencial para a humanidade, classificando tais preocupações como “absurdamente ridículas”.

Contudo, essa postura também tem sido alvo de críticas por parte de especialistas que, embora reconheçam suas contribuições significativas para o setor, apontam que ele teria sistematicamente desconsiderado o trabalho de outros profissionais ao longo dos anos.