Uma pesquisa divulgada pela Wolters Kluwer em parceria com o instituto Ipsos, com médicos e enfermeiros dos Estados Unidos, mostra um contraste que uma reportagem do Financial Times de 20 de setembro descreve bem (o texto original está atrás de paywall; aqui, resumido pelo boletim AI Weekly): quem mais usa IA no dia a dia clínico é, ao mesmo tempo, quem mais resiste a ampliar seu papel. O uso diário triplicou entre médicos e dobrou entre enfermeiros em um ano, mas a confiança na ferramenta não acompanhou o mesmo ritmo.
O que a pesquisa mostra
O levantamento “Future Ready Healthcare 2026” ouviu 355 profissionais de saúde nos Estados Unidos, 203 médicos e 152 enfermeiros, além de 254 pacientes, em entrevistas conduzidas pela Ipsos entre 11 e 14 de março de 2026. O uso diário e repetido de IA por médicos saltou de 10% em 2025 para 38% em 2026; entre enfermeiros, foi de 16% para 32% no mesmo período (Wolters Kluwer).
Apesar do salto de adoção, o mesmo levantamento identificou quatro preocupações que resistem. Segundo o FierceHealthcare, 74% dos profissionais temem que a ferramenta cause “deskilling”, a perda gradual de habilidades clínicas por dependência excessiva da IA; 74% desconfiam das respostas por causa de alucinações; 72% temem que modelos de negócio financiados por publicidade distorçam recomendações médicas; e apenas 27% dizem conhecer alguma política formal de governança de IA em sua instituição, ante 21% no ano anterior. É um avanço de seis pontos percentuais num indicador que, para ser tranquilizador, precisaria estar muito mais perto de 100%.
Do lado dos pacientes, 42% afirmam levar informações geradas por IA às consultas com frequência, e 59% dos profissionais dizem interagir com esse material trazido pelo paciente. Ainda assim, 70% de médicos, enfermeiros e pacientes concordam que a IA pode melhorar o letramento em saúde e o engajamento do paciente com o próprio tratamento. A mesma pesquisa capta adoção acelerada e desconfiança alta ao mesmo tempo, sem contradição real entre os dois números.
Vale um contexto sobre a fonte. A Wolters Kluwer vende software clínico, incluindo ferramentas de documentação com IA, para hospitais e sistemas de saúde, e tem interesse comercial direto em mostrar a adoção de IA em ascensão. Os números não deixam de ser relevantes por isso, mas vêm de uma pesquisa encomendada pela própria empresa, sem verificação independente da metodologia, e a cobertura disponível (Wolters Kluwer, BusinessWire e FierceHealthcare) reproduz essencialmente o mesmo comunicado.
Onde os médicos traçam o limite
Segundo a reportagem do Financial Times resumida pela AI Weekly, o critério que separa o que os médicos aceitam do que rejeitam não é a tecnologia em si, mas o quanto ela já foi validada clinicamente. Diagnóstico por imagem passa no teste: é uma tarefa com resposta objetiva, o exame está certo ou errado, testada em ensaios clínicos publicados e revisados por pares ao longo de vários anos. Documentação clínica, recomendação de tratamento e comunicação direta com o paciente ficam do outro lado dessa linha: são tarefas mais subjetivas, mais difíceis de validar e, até agora, submetidas a muito menos escrutínio científico do que a IA de imagem já recebeu.
Essa divisão ajuda a explicar por que os médicos que mais usam IA no dia a dia são também os que mais resistem a expandir seu uso para novas frentes. Não é ceticismo genérico com a tecnologia, mas resistência dirigida especificamente às áreas em que a evidência científica ainda não acompanha a velocidade da adoção.
Por que isso importa
O caso da medicina expõe um problema mais amplo na forma como a IA generativa tem sido adotada fora dos laboratórios: uso em massa raramente vem acompanhado de governança na mesma velocidade. A pesquisa da Wolters Kluwer capta profissionais de saúde usando IA todos os dias mesmo sem confiar plenamente nela, e a maioria das instituições ainda sem uma política formal para orientar esse uso. A consciência sobre governança avançou só seis pontos percentuais em um ano, enquanto o uso diário mais que triplicou entre médicos no mesmo período.
O risco prático é concreto, não hipotético. Uma alucinação num resumo de literatura médica ou numa nota de prontuário pode se traduzir em decisão clínica equivocada, e o próprio levantamento mostra que a consciência sobre esse risco (74% temem alucinações) é bem maior do que a cobertura institucional disponível para mitigá-lo (27% conhecem uma política formal). Ferramentas de imagem passaram por anos de ensaios clínicos publicados antes de ganhar a confiança de médicos. Aplicações mais recentes, como assistentes de documentação, sugestões de tratamento e chatbots que respondem diretamente ao paciente, estão sendo implantadas em escala sem o mesmo volume de evidência acumulada.
A mesma tensão aparece sempre que uma indústria regulada adota ferramentas de IA generativa mais rápido do que consegue medir seus erros: a confiança do usuário final cresce junto com o uso, mas a validação formal (auditoria, ensaio clínico, política de governança) segue num ritmo bem mais lento. A medicina só torna isso mais visível porque o custo de um erro é mais alto.
O que observar a partir daqui
A tendência que a pesquisa capta deve se acelerar, não recuar: com uso diário já em 38% entre médicos e crescendo, a pressão para levar IA a tarefas além do diagnóstico só deve aumentar nos próximos meses. O ponto a observar é se a validação clínica e a governança institucional vão conseguir acompanhar esse ritmo, ou se vão continuar a reboque da adoção, como sugerem os 27% de consciência sobre políticas formais registrados na pesquisa.
Sistemas de saúde que quiserem avançar com segurança para as áreas mais sensíveis, como documentação, recomendação de tratamento e comunicação direta com o paciente, provavelmente vão precisar do mesmo tipo de validação por ensaios clínicos publicados que legitimou a IA de imagem, e não apenas da promessa de ganho de eficiência. Até lá, a divisão que os próprios médicos já fazem, aceitar a IA no exame mas não na decisão clínica, tende a continuar sendo a régua real de adoção, independentemente do que fornecedores de tecnologia anunciem.
Fontes
- Wolters Kluwer: Future Ready Healthcare survey: Rapid AI adoption in healthcare highlights worries, opportunities, for both patients and clinicians
- FierceHealthcare: Wolters Kluwer Health survey examines AI use and concerns among clinicians, patients in 2026
- BusinessWire: Wolters Kluwer’s Future Ready Healthcare survey: Rapid AI adoption in healthcare highlights worries, opportunities, for both patients and clinicians
- AI Weekly, síntese da reportagem do Financial Times de 20 de setembro de 2026: FT: Clinicians Push Back on Medical AI Beyond Diagnostics