Ser um guru nunca foi tão fácil. Não há mais necessidade de peregrinação ou reunir multidões. Basta uma conta no Instagram e frases motivacionais pra começar a atrair seguidores.

De coaches como Wendell Carvalho a líderes espirituais como Bentinho Massaro, há uma abundância de gurus para todo gosto.

Não necessariamente eu considero isso um problema, afinal há sempre coisas legais para serem aprendidas com essas pessoas. No entanto, há algumas questões que são omitidas por esses gurus.

Seja por má fé e manipulação ou ignorância e ego, poucos são os que realmente vão a fundo de verdade para nos ensinar a desconstruir nossos preconceitos e realmente nos conhecer.

Eu não sou um crítico da auto-ajuda, de coaches ou de gurus. Muito pelo contrário, eu gosto tanto de buscar auto conhecimento que já li dezenas de livros, participei de eventos e até trabalhei com alguns desses ‘gurus’. Cheguei até a fazer um processo de coach com uma pessoa incrível, o que me trouxe diversos benefícios.

Ao mesmo tempo, eu não sou complacente com a área e consigo enxergar que muito do que é falado acaba sendo mais pregado com interesses por trás do que realmente buscando a ajuda dos outros.

Nesse texto eu quero comentar um pouco com você sobre uma forma de olhar para esses gurus e, principalmente, te contar algo que, na minha percepção, é omitido com frequência e é extremamente importante para nosso desenvolvimento.

Uma observação importante: Não me refiro como ‘guru’ aqui no texto os mestres indianos, que deram origem ao termo. Mas sim me refiro à conotação de líder carismático, guia, mentor ou influenciador. Em especial os que fazem uso da fácil difusão de conteúdo pela web.

O Segredo

Já reparou que a comunicação ‘de gurus’ é pautada frequentemente num determinado segredo que apenas eles tem acesso? Seja nas redes sociais ou mídias tradicionais, a mensagem de que há algo não revelado é poderosa e, curiosamente, essa informação só pode ser revelada depois de um pagamento de R$ 997.

Isso quer dizer que a informação secreta é balela? Não necessariamente, mas é importante percebermos o padrão para não cair em furadas.

Porém, mais importante do que isso é entender que existem informações que desconhecemos.

Desconhecemos tanto algo que sabemos que não sabemos, quanto aquilo que ainda nem sabemos que não sabemos.

Confuso? Um pouco, mas deixa eu tentar explicar de outra maneira.

Eu posso falar que não sei fazer cálculos de integrais na matemática. Eu sei que existem, mas eu não sei fazer.

Por outro lado, existem outras inúmeras ferramentas matemáticas que eu nem faço ideia que existem e, naturalmente, também as não conheço.

Gurus frequentemente nos abrem a cabeça para mundos que não ainda sabíamos que existem. Seja algo mais voltado para a espiritualidade ou ciência, há inúmeras ferramentas, informações e possibilidades que simplesmente não fazemos ideia que existem.

A ideia de que o guru, portanto, pode nos ensinar e nos guiar para esse novo estágio de consciência é poderosa.

Um ‘guru científico’, como o Dave Asprey, pode nos trazer informações sobre biohacking e sobre o nootrópicos, isto é, maneiras que podemos ir além das capacidades do nosso corpo e cérebro para ficar mais concentrado e até inteligente.

Já Eckhart Tolle, como um ‘guru espiritual’, pode nos ensinar sobre o poder oculto e paz que vem através do foco no Agora.

Cada guru, ou influenciador nos termos atuais, provavelmente tem algum segredo interessante para compartilhar.

O caminho sem volta

Não sei sobre você, mas vou te dizer que a cada nova informação ou segredo que aprendo, mais compreensão do mundo parece que tenho. O que, ao mesmo tempo, traz uma noção de humildade porque junto descobrimos que ainda há muito mais coisa que agora sabemos que não sabemos.

Ao mesmo tempo, a cada nova ‘expansão da consciência’, há um desejo por mais. É uma clássica situação da adaptação hedónica. E como atualmente, com todo mundo nas redes sociais, não há falta de conteúdo, parece que sempre há algo novo para aprender, um novo curso para fazer e uma nova comunidade para participar.

Legal ne?

Bom…mais ou menos.

No meu caso, minha experiência depois de anos nesse caminho é que é um tanto quanto estressante. Em especial porque começamos a ver que uma boa parte de ‘gurus’ falam a mesma coisa de maneiras diferentes. Alguns são mais profundos, outros são mais rasos e parecem aproveitar da onda.

Uns contam a partir de estudos, outros de experiências. Uns são humildes, outros arrogantes.

O que é de se esperar uma vez que todos ainda são humanos e estão aptos a serem influenciados. Possuem desejos, frustrações, dificuldades e felicidades.

O que nos leva a um primeiro ensinamento sobre o acompanhamento de influenciadores ou gurus:

Eles não são super homens ou super mulheres. São humanos que possuem uma área de maior conhecimento ou consciência. O que não significa que são desenvolvidos, experts, sensíveis, fortes ou conscientes em outras áreas da vida.

Perceber isso me fez ter outro olhar para as pessoas que admiro. Inclusive, passei a admirá-los ainda mais pois, apesar de todas as dificuldades de ser “igual a nós”, eles ainda conseguiram se desenvolver e expandir suas consciências em determinadas áreas.

Eu acompanhei alguns influenciadores e gurus de perto e pude ver que há uma certa visão de que eles ou elas são especiais em todos os sentidos por parte das pessoas que os(as) seguem.

A adoração, devoção e confiança no que fazem e falam é absoluta. O que é especialmente perigoso a partir do momento que temos essa compreensão acima de que não é bem assim na realidade.

O que não te contam sobre desenvolvimento pessoal

Bacana, cada um tem seu segredo. Todos ainda são humanos. Como podemos aprender com esses mestres e, ao mesmo tempo, não nos ‘apaixonar cegamente’ e tratá-los(as) como especiais?

Para isso, vem outro questionamento:

Quanto mais aprendemos, mais consciência e auto conhecimento. Não é mesmo? Ao mesmo tempo, essa consciência nos abre a mente para mais do mundo que não ainda conhecemos. Deveríamos, portanto, ter também a noção cada vez maior da nossa ignorância. Algo que, em geral, não é apresentado por gurus. Por que?

A posição de um guru ou forte influenciador é a de poder. Poder de que o que fala é ouvido e é transformado em ação por aqueles que o(a) seguem.

O poder, por sua vez, alimenta o ego e fortalece a mensagem que se passa.

Pensa só:

Você tem uma experiência na sua vida. Vamos dizer que conseguiu sobreviver a um acidente. Você, refletindo sobre o ocorrido, atribui sua sobrevivência ao seu excelente reflexo pois conseguiu abaixar na hora “H”.

Ao contar essa mensagem para mais e mais pessoas, você fortalece essa narrativa. Quando outras pessoas também corroboram sua mensagem contando situações em que seus reflexos também ajudaram, sua percepção de que essa situação é uma verdade fica maior.

Quando começa a ‘pregar’ que todos devem treinar seus reflexos e outros dizem que também tiveram benefícios por causa de seus melhorados reflexos, essa mensagem vira inquestionável.

Reflexão > suposição > probabilidade > verdade > algo inquestionável.

Com as redes sociais, há uma infinidade de mensagens e relatos que podem corroborar nossas mensagens. Várias vezes eu compartilhei reflexões no meu Instagram que foram corroboradas por outras pessoas. Naturalmente, passei a acreditar ainda mais na minha visão de mundo.

E aí que está o problema. Quanto mais acreditamos na nossa visão de mundo como verdade, menos temos abertura para novos aprendizados, desenvolvimentos e aceitação para outras percepções.

Frequentemente, gurus apresentam suas visões de mundo como a verdade absoluta. Algo inquestionável, possivelmente secreto e verdadeiro. Outras visões de mundo conflitantes não podem existir. E independentemente de qual a área dessa mensagem, o guru se mostra como especial como ser humano. Como se tivesse acesso a consciências ocultas sobre a vida como um todo.

É difícil para eles se desvincularem dessa imagem pois há o risco de que, se apresentarem como ignorantes em outras áreas, a mensagem que pregam não será tão mais poderosa.

Procure no YouTube vídeos de eventos de grandes influenciadores do marketing e desenvolvimento pessoal. Érico Rocha, Tony Robins, Gary Vaynerchuk, Tim Ferris, Tai Lopez, etc. A confiança de acreditar que suas visões de mundo são absolutas é ao mesmo tempo incrível e assustadora.

Incrível porque é uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. Efetiva, capitalista, louvável pela nossa cultura ocidental. Assustadora porque influencia diretamente a ação de milhares de pessoas que tomam suas visões de mundo como verdade.

Tá. Mas há algum problema em milhares de pessoas tomarem as mensagens de gurus como verdades?

Na minha percepção atual, há sim. Vou te explicar:

Pode ser que um desses gurus tenha a chave do mundo? Pode ser que tenha, mas eu apostaria que não. O que significa que a maior parte deles tem algo legal para dizer e outras muitas coisas não tão legais.

Mais do que isso, pode ser que a solução para um desafio humano que propões em suas mensagens ou pregações funcionem para algumas pessoas, mas não para todas.

E, claro, pode ser que essa solução que pregam não passe de uma manipulação comercial.

Vemos todo tipo de situação. Inclusive podemos traçar um paralelo com a religião, cultos e seitas. Muitas vão ter mensagens e pregações interessantes, amorosas, questionadoras e que partem de uma visão construtiva com o mundo. Muitas outras vão cair mais pro lado da manipulação com o objetivo de ganhar dinheiro, poder e status.

No entanto, chegamos aqui a mais um ponto importante sobre o que os gurus não contam sobre desenvolvimento pessoal:

Não é porque algo que pregam funciona para eles e para muitas pessoas que vai funcionar para nós.

Cada um é diferente. Cada um tem objetivos diferentes na vida, noções de sucesso diferentes e, talvez principalmente, condições e privilégios diferentes.

Conclusão

Vamos recapitular então. Passamos por três grandes questionamentos:

  1. Gurus não são indivíduos especiais e desenvolvidos em todos os aspectos da vida. Possuem dificuldades e até são ignorantes em muitos aspectos.
  2. Gurus – ou influenciadores – precisam manter uma posição de poder holisticamente para se apresentarem a seus seguidores. A corroboração de suas mensagens por outros inflam o ego e ofuscam uma visão mais humilde de que pouco podem saber sobre outras partes do que é ser humano.
  3. Gurus não te falam que pode ser que suas soluções para o mundo, para a felicidade ou para o sucesso podem não funcionar com você. Frequentemente ignoram privilégios e não reconhecem outras maneiras de se atingir os mesmos objetivos além das maneiras que apresentam ou vivenciaram.

Isso significa que não vale a pena seguir gurus ou outros indivíduos que dizem que possuem algum segredo ou algo especial sobre a vida?

De maneira alguma!

Como disse, até hoje sou positivamente influenciado por mensagens e ‘pregrações’ de pessoas incríveis. Suas informações e questionamentos são poderosas e me ajudam a expandir a consciência.

Ao mesmo tempo, acredito que temos que ser menos ‘apaixonados cegamente’ e não tratar essas pessoas como sobrenaturais. São pessoas incríveis, sem dúvidas! Mas são pessoas que também erram e que podem reconhecer suas próprias ignorâncias sem que precisamos as deslegitimar.

Legitimação é a palavra chave aqui. E eu legitimo aquelas pessoas que tem a humildade de reconhecer que podem estar erradas. Que reconhecem que há vários caminhos para um mesmo destino e que entendem que pode ser que estejam erradas.

Pessoas assim normalmente estão sempre buscando mais aprendizados, não deixam o ego falar mais alto e não deixam o status ser justificativa para a falta de humildade.

Faz sentido?

Me conta aí nos comentários.

Divirta-se!