O que acontece quando a IA vem buscar nossas fontes?

O futuro da tipografia é incerto.

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A Monotype quer que você saiba o que a inteligência artificial pode fazer na tipografia. Sendo uma das maiores empresas de design tipográfico do mundo, a Monotype é dona de Helvetica, Futura, Gill Sans e de outras 250 mil fontes. Em seu relatório de tendências de 2025, o Re:Vision, publicado em fevereiro, a empresa dedica um capítulo inteiro para examinar como a IA poderá resultar em uma tipografia reativa, capaz de “aproveitar dados emocionais e psicológicos” para se adaptar ao leitor. Imagine que o texto possa entrar em foco quando você o observa e suavizar quando seu olhar se desvia, que as fontes sejam alteradas conforme a hora do dia e a intensidade da luz, ou ainda que a tipografia se ajuste à velocidade de leitura, destacando as partes mais importantes do conteúdo online para aumentar o engajamento. Segundo o relatório, a IA tornará as fontes acessíveis por meio de “agentes inteligentes e chatbots”, permitindo que qualquer pessoa possa criar tipografia independentemente de treinamento ou experiência em design. Ainda não se sabe exatamente como isso será implementado – possivelmente através de aplicativos proprietários –, permanecendo envolto em incerteza.

A Monotype não é a única a especular sobre o futuro da tipografia. Tipógrafos estão acompanhando de perto a chegada da IA, enquanto designers começam a adotar ferramentas como o Midjourney para ideação, o Replit para programação e exploram o potencial dos GPTs em seus fluxos de trabalho. Em todo o universo da arte e do design, criativos se lançam na busca por encontrar o uso ideal da IA no design de fontes. Essa procura ocorre de forma especulativa e, em alguns casos, até de maneira contestadora, à medida que se rejeita a ideia de que a criatividade seja o gargalo que deve ser eliminado do processo.

Essa preocupação com a otimização remete a um período de intensas transformações: há cem anos, no início do século XX, artistas e artesãos se reuniam para debater o impacto da industrialização acelerada na arte e na tipografia, durante encontros do Deutscher Werkbund – a aliança alemã de criadores. Alguns rejeitavam a produção em massa e as transformações que ela acarreta, enquanto outros abraçavam a novidade, movimento que viria a culminar na fundação da Bauhaus.

“É quase como se fôssemos manipulados para acreditar que nossas vidas, nossas profissões ou nossas habilidades criativas são efêmeras.”

Na época, diversas questões vagas foram lançadas sobre o que a industrialização poderia significar para a tipografia, mas sem apresentar respostas concretas. Permaneceria o design apenas na página ou ele se transformaria, integrando som, como aconteceu com a radiofonia? Seria possível desenvolver uma fonte universal aplicável em qualquer contexto? Ao final, os experimentos pouco alteraram o panorama, e as verdadeiras inovações se concentraram na eficiência, tanto da produção quanto do processo de criação. Hoje, a Monotype parece estar reinventando essas velhas indagações, mas sem perder o pé na realidade quanto ao papel imediato da IA.

Charles Nix, diretor criativo executivo da Monotype e um dos autores do Re:Vision, explica: “Nosso foco principal é conectar as pessoas à tipografia que elas necessitam – em todos os lugares.” Essa abordagem não é novidade para a empresa, que vem treinando seu mecanismo de identificação de fontes desde 2015. Segundo Nix, as possibilidades abertas pela IA são praticamente infinitas, o que torna este momento especialmente empolgante para os tipógrafos. “Acredito que, em ambos os lados da implementação da IA, existem pessoas em busca de soluções inovadoras para problemas, utilizando suas habilidades como designers. Não se tem essas oportunidades com frequência na vida, de testemunhar uma mudança radical na forma como a tecnologia atua não só na nossa indústria, mas em diversas outras.”

Por outro lado, nem todos estão tão entusiasmados. Zeynep Akay, diretora criativa do estúdio de design tipográfico Dalton Maag, ressalta que os resultados atuais simplesmente não justificam uma empolgação exagerada. Isso não significa que a Dalton Maag esteja rejeitando a IA – ao contrário, ela reconhece o potencial assistencial dessa tecnologia, que pode reduzir tarefas repetitivas no processo de design, como a criação de tabelas de kerning, a escrita de recursos OpenType e o diagnóstico de problemas com fontes. Contudo, muitos designers ainda temem entregar o controle criativo a uma IA generativa.

Akay aponta: “É quase como se fôssemos manipulados para acreditar que nossas vidas, nossas profissões ou nossas habilidades criativas são efêmeras.” Ela ainda não vê nas aplicações generativas da IA uma promessa clara de um futuro criativo melhor. “Estamos caminhando para um futuro em que, possivelmente, todas as atividades intelectuais humanas sejam progressivamente substituídas pela IA – e o que ganhamos em troca não fica, de forma alguma, claro”, conclui.

Para Nix, a aplicação mais realista da IA está em simplificar o que ele chama de tarefas “realmente pedantes” do design tipográfico. A tecnologia pode reduzir barreiras para quem deseja ingressar no design de fontes, mas o “pensamento criativo, esse estado de ser criativo, permanece inalterado, independentemente do que façamos com a ferramenta.”

Ele relembra: “Há 35 anos, muitos acreditavam que a introdução dos computadores no design acabaria substituindo os designers. Mas, para todos nós que passamos as últimas décadas criando designs com computadores, essa mudança não diminuiu nossa criatividade nem um pouco.”

A transição para o design digital ocorreu como resposta a uma necessidade clara de agilizar o fluxo de trabalho tipográfico, passando das composições manuais para soluções mais imediatas, segundo destaca Akay. No cenário atual, entretanto, estamos diante de um desafio: ainda não sabemos exatamente como será o “quadro” em que a IA se encaixará. Por mais poderosa que a tecnologia possa ser, ainda se discute onde ela deve ser implementada em nosso fluxo de trabalho – ou mesmo se deve ser aplicada, considerando os resultados modestos que a IA generativa tem apresentado até agora. Essa falta de direção remete a lembranças da bolha dot-com do final dos anos 1990.

Naquela época, com o aumento do acesso à internet, uma onda de startups surgiu, acompanhada de grandes investimentos de capital de risco. Muitas dessas empresas, apesar de supervalorizadas e sem um problema real a resolver, acabaram entrando em colapso em 2000. “Mas a internet ressurgiu quando, finalmente, passaram a existir problemas reais a serem solucionados”, lembra Akay.

De forma semelhante, a maioria dos consumidores de IA não é composta por designers profissionais tentando otimizar seu fluxo de trabalho. Ao contrário, a IA tem se tornado, cada vez mais, o playground – e o produto – de executivos que acentuam seu valor na tentativa de automatizar funções e eliminar a criatividade dos processos profissionais.

Ambos, Nix e Akay, concordam que uma eventual “quebra” nos modelos atuais de aplicação da IA pode inclusive ser benéfica, afastando expectativas irreais dos investidores. Para Nix, o fato de a necessidade prática ainda não estar evidente não significa que ela não exista ou que não se tornará clara em breve – pode ser que esteja além do nosso campo de visão atual.

Nix ainda destaca que, por estarmos predominantemente focados no ocidente, talvez nem percebamos as limitações que temos na vasta seleção de fontes quando se trata de scripts não latinos. Esse e outros aspectos fora do mainstream ocidental podem ser os verdadeiros motores da demanda por inovações na tipografia com o uso de IA. “As periferias podem acabar ditando essa necessidade”, afirma.

Mesmo com todas essas perspectivas, é improvável que o modelo atual de comercialização da tipografia mude radicalmente. Continuaremos a licenciar fontes de empresas como Monotype e Dalton Maag. No entanto, nesse novo processo impulsionado pela IA, esses aplicativos generativos poderão ser integrados aos modelos de assinatura já existentes, o que pode refletir em custos de licenciamento repassados aos consumidores.

Por enquanto, tudo isso permanece no campo da especulação. Estamos apenas no início: as únicas ferramentas de IA que podemos demonstrar atualmente são soluções de identificação de fontes, como o WhatTheFont, e iniciativas relacionadas, como o TypeMixer.xyz. Compreender o potencial dessa tecnologia nascente com base em suas funcionalidades atuais é como tentar entender uma forma quadridimensional. “O que era definido como tipografia em 1965 é radicalmente diferente do que entendemos como tipografia em 2025”, conclui Nix. “Sabemos que mudanças são possíveis e que elas ocorrerão, mas ainda é difícil prever quanto dos nossos fluxos de trabalho atuais se manterá e qual será nossa concepção de tipografia daqui para frente.”

Enquanto exploramos essas possibilidades, é importante não se deixar levar pelo espetáculo do que a IA aparentemente pode fazer. Pode parecer sedutor para aqueles que apostaram de tudo nessa tecnologia, mas, para Akay, isso não se resume apenas à mecânica: a criatividade tem seu valor justamente por não ser algo simples ou instantâneo, mas sim o resultado de trabalho, reflexão e risco. Em um futuro e fluxo de trabalho incertos, “não significa que tudo esteja fundamentado em bases sólidas e imparciais, nem que devamos agir de maneira imprudente no presente.”