Se há algo que essa pandemia está nos ensinando é que nem sempre nossa liberdade nos é garantida.

Aqui no blog eu frequentemente defendo a autonomia e a maneira de buscarmos nós mesmos nossas definições de sucesso.

Liberdade geográfica, liberdade de tempo, liberdade financeira, liberdade de pensamento e por aí vai. Em uma boa parte, os países democráticos nos dão a possibilidade de perseguir esses ideias, porém algo externo mais importante, como atualmente a pandemia, nos mostra que esse “direito de liberdade” nada mas é do que situacional.

Para quem não nasceu com privilégios, essa tal liberdade já é bem relativa, mas até certo ponto podemos contar com as instituições e regras pra fazer valer nossos direitos.

Já pra quem é privilegiado pela cultura dominante, se ver impedido de ir e vir é um tanto quanto desesperador e algo talvez novo.

Para ambos os casos, não é uma situação fácil.

A minha situação, até certo ponto, foi um pouco mais agravada no quesito perda de liberdade por dois motivos:

  1. Até antes da pandemia eu vivia como nômade digital, então carregava apenas uma mala viajando o mundo. O máximo do desprendimento e liberdade.
  2. Meu filho nasceu bem no início do período de reclusão por causa da pandemia.

Entre momentos maravilhosos e muito difíceis, esses ano ta chegando ao fim com, ao mesmo tempo, esperança e um sentimento de que já esgotou há muito tempo a paciência ou resiliência.

Por isso, quero compartilhar brevemente aqui um pouco sobre minha visão sobre liberdade e o que tem me inspirado pra tentar passar pelo que ainda virá.

Recalibrar

Por volta de Junho, me vi num certo desespero. O cansaço bateu pelas várias noites sem sono e a falta de ajuda só multiplicava as coisas pra fazer. Casa, trabalho, cuidado com o neném, não poder sair pra rua e ainda a falta de contato social foi se juntando e ter sentimentos ruins ficou bem mais fácil.

Em vista a essa situação, eu e minha esposa começamos a tentar entender o que poderíamos abrir mão para ajudar. Seria abrir mão de fraldas ecológicas? Seria abrir mão de comidas orgânicas e veganas? Seria abrir mão de não colocar o neném na frente de uma tela pra sossegar? Seria abrir mão da segurança da reclusão?

Se tudo é importante intimamente, como faz pra abrir mão?

Aí veio o primeiro desafio, que foi compreender o que abriríamos mão daquilo que era importante, mas não conseguimos manter.

No entanto, algo que não tinha percebido é que não precisamos abrir mão completamente e aí sim que está um grande aprendizado.

Não é porque vou abrir mão de usar exclusivamente fraldas ecológicas que eu não posso as usar 50% do tempo.

Ainda estarei contribuindo para a sustentabilidade do planeta.

Esse reajuste íntimo do que podemos abrir mão, mesmo que só um pouquinho, deu um certo equilíbrio pro dia a dia. Pelo menos passamos a sair devagar do “modo sobrevivência” e passamos a conseguir, no mínimo, lidar com as obrigações da casa, do trabalho e da família.

Ponto de vista

Ao relembrar alguns livros de desenvolvimento pessoal, lembrar de ser grato todos os dias foi algo que tomou uma proporção bem diferente.

Me lembro num dia que o neném estava muito inquieto, o trabalho estressante e bem num momento que os casos de covid estavam aumentando na minha cidade.

Já era início da noite e ainda não tínhamos feito uma refeição decente no dia. Comecei a lavar a louça, naturalmente estressado, e um prato de porcelana quebrou e caiu em cima de um dos meus dedos.

O corte foi muito profundo e foi sangue pra tudo quanto é lado.

Naquela situação de desespero, o primeiro impulso é resolver. Depois de estancar o sangue e pedir conselhos para familiares médicos por câmera, resolvi ficar em casa e apenas fazer o curativo com um resto de gaze e esparadrapo que tinha.

Com todo o direito de achar ruim da vida, eu mexi meu dedo e o vi ‘funcionar’ ainda bem. E nesse momento me veio uma gratidão por ter sido só um corte e que ia ficar tudo bem.

Pedimos comida pra entregar no final das contas e tudo se ajeitou.

O sentimento de gratidão é poderoso. Não porque ele vai magicamente mudar a situação, mas por que nos convida a olhar as situações por outro ponto de vista.

Todo dia, antes de dormir, eu paro e reflito sobre o que sou grato. Pelo dia, pela segurança, pela saúde, pelo alimento, pelo amor e por aí vai. Lembrar daquilo que está bom com frequência, faz com que o que não está muito legal seja colocado em perspectiva.

O resultado, que não é surpresa, é que o dia a dia fica um pouco mais leve.

Um dia de cada vez

Talvez você já tenha ouvido essa frase.

“Um dia de cada vez”.

Por mais que eu também já tivesse a ouvido muitas vezes antes, parece que só agora, depois que a minha esposa comentou que é o jeito que dá pra viver, que entendi um pouco mais sobre seu significado.

Antes, com toda a liberdade do mundo, me parece que um dia de cada vez significava uma aventura de cada vez. No entanto, agora sua conotação remete à resiliência diária.

Se for pensar no futuro breve, não há como fazer planejamentos. Não sabemos quando o neném vai ‘dar menos trabalho’ e muito menos sabemos quando todo mundo poderá ser vacinado.

Ou seja, somente vivendo um dia de cada vez o tempo passará e chegaremos a um estado menos difícil.

Ao mesmo tempo, ‘um dia de cada vez’ também nos convida a prestar mais atenção no aqui e agora. por mais difícil que esteja, ainda há muitos momentos lindos durante o dia. De amor, de risos, de carinho, de conquistas e por aí vai.

Prestar atenção nesses momentos é um aprendizado que pretendo aprimorar e levar pra frente.

Sempre fui muito de planejamentos e de viver no futuro, mas esse tipo de perspectiva só gera ansiedade.

Prestar mais atenção em cada dia está sendo um pouquinho também libertador.

Comunicação

Para terminar, quero falar sobre comunicação. Mais especificamente sobre sermos vulneráveis e nos expressar como realmente nos sentimos com aquelas pessoas que estão próximas da gente – seja fisicamente ou emocionalmente.

De longe, o que mais tem trazido paz e esperança nesses momentos difíceis são as conversas em que consigo ir fundo e me expressar sem filtros.

Expressar verdadeiramente não é uma tarefa fácil, principalmente porque nem sempre nos compreendemos o suficiente pra saber o que é essa “verdade” que sentimos.

Tem hora que o foco de uma frustração é por uma ação do outro ou uma ação nossa mesmo. No entanto, se formos fundo mesmo vamos descobrir que há inseguranças ou orgulho por trás.

Ter alguém para poder nos ouvir é fundamental, mas mais do que isso é preciso ter alguém que vai nos ouvir sem julgar ou buscar alguma solução pro que expressamos.

Ouvir empaticamente é o caminho.

E para conseguir alguém assim talvez o caminho seja nos tornarmos esse tipo de pessoa que ouve sem julgar.

Bom…essa é a reflexão que tenho pra hoje e espero que uma parte ou outra tenha gerado algum questionamento interessante em você.

Me conta aí nos comentários.

Divirta-se!