Elad Gil começou a apostar em inteligência artificial antes que a maioria do mundo percebesse sua importância. Quando os investidores começaram a compreender as implicações do ChatGPT, Gil já havia realizado aportes em startups como Perplexity, Character.AI e Harvey. Atualmente, enquanto os primeiros vencedores da onda da IA se tornam mais evidentes, o renomado investidor “solo” está cada vez mais focado em uma nova oportunidade: usar a IA para reinventar negócios tradicionais e expandi-los por meio de roll-ups.

A ideia é identificar oportunidades para adquirir empresas maduras, que dependem fortemente de mão de obra — como escritórios de advocacia e outras firmas de serviços profissionais — ajudar na sua expansão através da inteligência artificial e, com as margens aprimoradas, adquirir outras empresas semelhantes para repetir o processo. Gil tem trabalhado nessa estratégia há três anos.

“Isso simplesmente parece tão óbvio. Esse tipo de IA generativa é muito boa em compreender, manipular e produzir textos — e isso abrange áudio, vídeo, programação, prospecção de vendas e diversos processos administrativos.”

Se for possível transformar efetivamente algumas dessas tarefas repetitivas em software, os lucros podem aumentar de forma dramática, criando modelos de negócio completamente diferenciados. A matemática por trás dessa estratégia é particularmente atraente quando o empreendedor possui a empresa, pois permite uma transformação muito mais rápida do que simplesmente vender software como fornecedor. Ao elevar a margem bruta de uma empresa, por exemplo, de 10% para 40%, há um grande avanço que possibilita adquirir outras companhias a preços mais elevados, graças ao fluxo de caixa intensificado e à alavancagem relativa gerada.

Até o momento, Gil já investiu em duas empresas que adotam essa estratégia. Uma delas é uma companhia com um ano de existência, focada na produtividade dos trabalhadores e avaliada em mais de 300 milhões de dólares por investidores importantes, como Andreessen Horowitz e o fundo para startups da OpenAI.

Embora ele não possa comentar os detalhes dos negócios privados, Gil ressalta que essa abordagem representa uma novidade. Há cerca de dez anos, roll-ups potencializados por tecnologia existiam, mas na prática a tecnologia era utilizada de forma superficial para aumentar a avaliação das empresas. No caso da inteligência artificial, é possível alterar radicalmente a estrutura de custos desses negócios.

Mesmo que reste saber se essa estratégia será tão lucrativa quanto outras apostas já realizadas por Gil — que também investiu em grandes marcas como Airbnb, Coinbase e Stripe (esta última avaliada em dezenas de bilhões de dólares) — o investidor demonstra grande confiança em sua abordagem.

Um dos desafios dos roll-ups é montar a equipe ideal, que combine um forte especialista em tecnologia e um profissional experiente em private equity, uma combinação que nem sempre é fácil de encontrar. Gil relata ter conhecido “talvez duas dúzias dessas equipes” e, mesmo reconhecendo seu potencial, muitas ainda precisam ajustar alguns pontos para atingir o nível desejado.

Em meio a essa movimentação, o investidor, que mantém relações profundas com empresas do Vale do Silício, pode enfrentar uma concorrência mais intensa à medida que outros players, como a Khosla Ventures, avaliam a possibilidade de adotar estratégias semelhantes.

Para Gil, não se trata apenas de ganhos financeiros. “Eu amo tecnologia, amo progresso e adoro me envolver tanto com pessoas que estão trabalhando em iniciativas importantes e interessantes quanto com a própria tecnologia”, afirma. Esse entusiasmo o levou a experimentar versões anteriores das ferramentas de inteligência artificial; quando o GPT-3 foi lançado, ele já estava explorando seu predecessor e percebeu, de imediato, o potencial transformador da nova tecnologia.

Hoje, essa abordagem prática continua com uma pequena equipe composta por profissionais com sólida formação em engenharia. Eles desenvolvem scripts, analisam desempenho e testam ferramentas, mantendo um envolvimento direto com as inovações do mercado.

Após anos de incerteza no setor, Gil enxerga vencedores claros emergindo. “Eu costumava dizer, mesmo seis meses atrás, que quanto mais aprendo sobre IA, menos sei devido à dinamicidade dos mercados e das tecnologias. Agora, nos últimos dois trimestres, alguns segmentos se cristalizaram.”

No setor jurídico, por exemplo, ele acredita já ser possível identificar um ou dois grandes vencedores. Essa visão se estende ainda a áreas como saúde e suporte ao cliente, que parecem apontar para as empresas presentes em seu portfólio.

Entre as apostas estão Harvey, que desenvolve modelos avançados de linguagem para escritórios de advocacia e equipes jurídicas, estando em negociações para captar novos recursos com avaliação próxima a 5 bilhões de dólares; Abridge, uma empresa de IA focada na área da saúde que visa otimizar os fluxos de trabalho dos profissionais médicos; e Sierra AI, cofundada pelo renomado executivo Bret Taylor, que auxilia empresas na implementação de agentes de IA para atendimento ao cliente e já foi avaliada em bilhões logo em seu lançamento.

Mesmo diante desses avanços, Gil é cuidadoso ao afirmar que o desafio ainda não acabou. “Não quero dar a impressão de que tudo está resolvido. No passado havia duas dúzias de empresas interessantes e, agora, em cada segmento, talvez apenas três ou quatro se destaquem. O mapa dos potenciais vencedores está se consolidando.”

Para ele, esse é um período empolgante, repleto de mudanças e com muitas oportunidades a serem exploradas. Estar na intersecção entre apostar no futuro da IA e transformar todos os outros setores por meio dessa tecnologia é algo extremamente inspirador.