Nova York (AP) — Cortes no quadro de funcionários do governo devastaram uma pequena agência de saúde dos Estados Unidos, cuja missão é proteger os trabalhadores, gerando críticas de bombeiros, mineradores, fabricantes de equipamentos médicos e outros setores.
O Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH), agência sediada em Cincinnati e vinculada aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), está perdendo cerca de 850 de seus aproximadamente 1.000 empregados, segundo estimativas de um sindicato e dos próprios funcionários afetados. Entre os desligados, estava o diretor, Dr. John Howard, que ocupava o cargo por três administrações presidenciais anteriores.
Os cortes estão paralisando — e talvez encerrando — diversos programas, incluindo um registro de câncer entre bombeiros e um laboratório fundamental para a certificação de respiradores em várias indústrias.
“Isso é um ataque direto aos trabalhadores deste país”, afirmou Micah Niemeier-Walsh, vice-presidente do sindicato que representa os funcionários do NIOSH em Cincinnati.
Representantes de sindicatos de mineradores, enfermeiras, comissários de bordo e outras categorias criticaram os cortes, afirmando que eles vão dificultar a identificação e prevenção de riscos no ambiente de trabalho. Manifestos em Cincinnati e em outras cidades reuniram não só ex-funcionários do CDC, porém também membros de sindicatos de professores, trabalhadores dos correios e pedreiros, segundo Niemeier-Walsh.
Médicos do NIOSH são responsáveis por revisar e certificar que os socorristas do 11 de setembro que desenvolveram doenças crônicas possam se qualificar para o cuidado dentro do Programa de Saúde do World Trade Center do governo federal, destacou Andrew Ansbro, presidente de um sindicato que representa bombeiros na cidade de Nova York.
“Desmantelar o NIOSH é desonrar a memória dos nossos irmãos e irmãs que se foram e abandonar aqueles que ainda lutam contra doenças relacionadas ao 11 de setembro”, declarou Ansbro.
Agência investiga perigos no ambiente de trabalho
O NIOSH foi criado em 1970, por meio de uma lei assinada pelo presidente Richard Nixon, iniciando suas operações no ano seguinte e crescendo a ponto de ter escritórios e laboratórios em oito cidades, entre elas Cincinnati, Pittsburgh, Spokane (Washington) e Morgantown (West Virginia).
Em mais de 50 anos de atuação, a agência realizou pesquisas pioneiras sobre qualidade do ar em ambientes de escritórios, violência no ambiente de trabalho e exposições ocupacionais a infecções transmitidas por sangue. Seus investigadores identificaram uma nova doença pulmonar em trabalhadores de fábricas que produziam pipoca de micro-ondas e contribuíram para avaliar as falhas ocorridas durante o desastre da plataforma de petróleo Deepwater Horizon. Recentemente, o NIOSH também participou da resposta do CDC a surtos de sarampo, orientando sobre medidas para conter sua disseminação em hospitais.
Alguns dos trabalhos mais conhecidos da agência estão relacionados à mineração. O NIOSH treina e certifica médicos para testar a doença do pulmão negro e realiza rastreamentos móveis entre os mineradores. Durante anos, a agência possuía uma mina experimental na Pensilvânia e, há dois anos, anunciou o desenvolvimento de uma instalação de pesquisa substituta, nas proximidades de Mace, West Virginia, que contará com túneis e outras estruturas típicas de uma mina.
Suas pesquisas e recomendações serviram de base para as normas do Departamento de Trabalho voltadas à proteção dos trabalhadores, incluindo uma regra emitida no ano passado para os mineradores de carvão que reduziu pela metade a exposição permitida à poeira de sílica venenosa. Estudos apontam que a atuação do NIOSH ajuda o país a economizar milhões de dólares anualmente por meio da redução de custos com compensações trabalhistas e outros gastos.
“Qualquer interrupção nesse tipo de pesquisa e recomendação pode impactar todos os segmentos da força de trabalho”, afirmou Tessa Bonney, professora de saúde ocupacional na Universidade de Illinois em Chicago.
Impacto dos profundos cortes no quadro ainda é incerto
O NIOSH foi envolvido na grande reestruturação do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) dos EUA, que incluiu cerca de 10 mil demissões, uma reorganização prevista e cortes orçamentários. Funcionários não sindicalizados — em sua maioria supervisores — foram orientados a esvaziar suas mesas imediatamente, enquanto os empregados sindicalizados receberam avisos de demissão, com a indicação de que seus desligamentos ocorreriam ainda este ano.
“No momento, estamos tentando descobrir a cadeia de comando”, comentou Niemeier-Walsh.
Um porta-voz do HHS, Andrew Nixon, informou que o que restar do NIOSH será transferido para uma nova agência que passará a se chamar Administração por uma América Saudável. Já o secretário do HHS, Robert F. Kennedy Jr., afirmou que 20% dos funcionários demitidos dos órgãos federais de saúde poderão ser reintegrados enquanto a agência tenta corrigir os erros, mas o departamento ainda não detalhou quais partes do NIOSH foram reduzidas ou eliminadas, e quais permanecerão em funcionamento.
O que se sabe dos cortes foi reconstruído por meio de depoimentos de funcionários afetados e do sindicato que os representa. Segundo eles, quase todos os programas do NIOSH sofreram reduções drásticas ou foram eliminados.
Na terça-feira, o site do registro de câncer entre bombeiros ficou fora do ar “porque não restou equipe de TI para operar o sistema”, relatou Niemeier-Walsh. Além disso, muitos dos centenas de camundongos e ratos de um laboratório do NIOSH em Morgantown possivelmente terão que ser sacrificados, já que as demissões interromperam abruptamente uma pesquisa de inalação que estava em andamento, conforme explicou Cathy Tinney-Zara, analista de saúde pública e presidente do sindicato que representa os funcionários locais.
“Milhões de dólares em pesquisa, décadas de trabalho, estão indo pelo ralo”, afirmou Tinney-Zara.
Indústria preocupada com laboratório de certificação
Parte das críticas de sindicatos e da indústria concentra-se no Laboratório Nacional de Tecnologia Pessoal de Proteção, setor do NIOSH que testa e certifica máscaras de proteção contra riscos ambientais. (As máscaras N95, que se popularizaram durante o surto de COVID-19, receberam essa designação a partir de um padrão do NIOSH.)
O fechamento do laboratório acaba por favorecer empresas na China e em outros países, que enviam produtos para os EUA sem cumprir os rigorosos padrões de qualidade que a certificação exige, explicou Eric Axel, diretor executivo da Associação Americana de Fabricantes Médicos.
“Essa decisão efetivamente recompensa fabricantes estrangeiros que não investiram na mesma medida em qualidade e segurança, enquanto pune empresas americanas que construíram sua reputação com produtos confiáveis e de alta qualidade”, afirmou Axel.
Para Rebecca Shelton, diretora de políticas do Appalachian Citizens’ Law Center, organização baseada em Kentucky que presta assistência jurídica a mineradores doentes, os cortes são “realmente devastadores”.
“Aqui, na região central dos Apalaches, todo mundo conhece alguém com a doença do pulmão negro”, comentou Shelton. Segundo ela, os programas do NIOSH voltados para os mineradores de carvão estão sendo eliminados, o que levanta questões sobre quem irá monitorar novos casos e identificar tendências. O pessoal do NIOSH costumava visitar minas e comunidades rurais para oferecer rastreamentos gratuitos e palestrar em reuniões públicas sobre a doença do pulmão negro e outros problemas de saúde ocupacional.
“Esses não são trabalhadores federais alheios à comunidade. Eles têm uma forte conexão com as pessoas”, afirmou Shelton.
Muitos funcionários do NIOSH vêm de famílias que atuam na área de saúde ocupacional há gerações. O avô de Niemeier-Walsh trabalhou como toxicologista da agência por 30 anos. “Era comum, durante o jantar em família, conversar sobre como usar o poder da ciência para proteger os trabalhadores”, relembrou ela.