E-mail – Reflexão da semana #20.

Me lembro de um dia na minha adolescência quando peguei um livro sobre física quântica e, obviamente, não entendi nada.

No entanto, uma faísca de informação foi compreendida e me fez questionar muitos dos conceitos que, até então, eram absolutos para mim:

Existem várias realidades e verdades.

Num primeiro plano de análise – aquela mais imediata e sem questionamentos – temos conceitos como “1 + 1 = 2”, “100 centímetros formam 1 metro” e “A palavra Cofre representa uma caixa de metal onde se guarda dinheiro”.

São conceitos absolutos. Verdades.

No entando, podemos dar um passo pra trás e pensar:

“Peraí, mas quem determinou isso?”

E aí vamos um pouco mais pra trás:

“Calma, mas esses conceitos só existem quando todo mundo acredita neles, não é?”

E podemos nos distanciar cada vez mais da realidade abstraindo os conceitos até o ponto que há só a natureza e tudo que existe é a nossa interpretação coletiva ou individual.

Uma grande viagem.

A questão é que “1 + 1 = 2” não existe se não houver o conceito de número ou de matemática. Então, somente acreditamos nessa soma porque há uma convenção.

Uma convenção é um “acordo sobre determinada atividade, assunto, etc…”, como já nos diz o dicionário do Google. E, mais importante: “…que obedece a entendimentos prévios e normas baseadas na experiência recíproca.”

Usando o mesmo exemplo da soma acima, ela somente existe quando temos um entendimento prévio de que números é um conceito já existente e que podemos somá-los. Dentro e apenas dentro dessa convenção – que acreditamos em uma sociedade ou cultura – é que podemos dizer que é verdade que “1 + 1 = 2”.

Resolvi usar um exemplo mais óbvio assim para demonstrar esse ponto por ser mais fácil de entender a dinâmica entre convenção e verdades.

Porém, todos os conceitos que hoje temos como verdadeiros e que aprendemos ao longo da vida são, no fundo, convenções e não verdades.

As convenções mais ‘obvias’ são aquelas que raramente pensamos. Cores, números, língua, etc.

No entanto, é simplesmente a interpretação coletiva desses conceitos que temos para compreender o mundo.

“O céu é azul” é uma frase que só faz sentido porque:

  1. Temos a convenção da linguagem para representar em uma palavra a ideia abstrata do que observamos ao olhar para cima ao ar livre.
  2. Temos a convenção da interpretação das diferentes cores por meio do sentido da visão e, por sua vez, uma forma na linguagem para representar essa cor.

Bacana…mas e o que ganhamos com a compreensão de que nada é verdade?

Bom, tenho alguns pensamentos sobre isso.

Primeiro, relativizar tira um pouco o peso que colocamos nas coisas da vida e lembramos de ser humildes perante nossa insignificância.

Isto é, se nem as noções mais básicas que formam minha compreensão de mundo são verdadeiras, não há necessidade de lidar com tanta paixão por coisas como futebol, política, religião, etc.

Relativizar, nos coloca em um estado agnóstico de que:

“Está tudo bem se minha noção de realidade e verdade não é a melhor ou a mais certa. No presente momento, eu compreendo a vida desse jeito e ela faz sentido pra mim, mas pode ser que eu esteja errado uma vez que não tenho a capacidade de enxergar além daquilo que observo e legitimo.”

Segundo, saber que as coisas, mesmo as mais básicas, são convenções, pode nos colocar num estado de criatividade para questionar.

A ciência, que para alguns mostra verdades, na realidade é o método mais humilde possível, pois tem o seguinte princício em seu núcleo:

Há algo na natureza que não compreendo. Então, crio uma hipótese e vou testar com os recursos à minha disposição (tecnologia) essa hipótese. Ela pode comprovar ou não essa hipótese. Caso seja comprovada, então a hipótese vira o estado atual de conhecimento sobre esse conceito ou área.

Depois de um tempo, com avanços de tecnologia, pesquisas em outras áreas ou simplesmente um viés diferente de olhar o mesmo problema, esse mesmo conhecimento pode ser refutado. Isto é, pode ser considerado errado ou incompleto. Isso levará a novas hipóteses, novas pesquisas e, por sua vez, um novo estado atual de conhecimento.

Pode ser que pensamos que sabemos tudo sobre a previsão do tempo hoje em dia. Mas daqui a uns anos podemos descobrir uma nova partícula no ar que antes não tínhamos a capacidade de identificar com a tecnologia atual. Essa partícula pode ser algo que influencia diretamente os movimentos da nossa atmosfera e, por sua vez, a previsão do tempo.

O método científico é interessante porque ele sempre se coloca aberto para ser questionado.

Se nos colocamos em um estado também assim de questionamento, podemos avaliar conceitos ‘já bastante definidos’ em busca de novas formas de o refutar e avançar no conhecimento científico.

Tenho pensado vez ou outra sobre essas questões e queria compartilhá-las com você hoje nesse e-mail.

Sei que o tema é complexo e que talvez eu não tenha o passado da forma mais clara. Mas a realidade é que também eu não tenho essas noções tão claras na cabeça. Apenas questionamentos, ideias e vontade de desenvolver.

Portanto, quero saber de você se fez sentido. Me conta respondendo ao e-mail.

Um abraço,

Divirta-se!