Durante o encontro desta semana do Fórum Econômico Mundial, em Davos, houve momentos em que a cidade se transformou em uma conferência de tecnologia de alto nível, marcada por aparições no palco de executivos como Elon Musk (Tesla), Jensen Huang (Nvidia), Dario Amodei (Anthropic), Satya Nadella (Microsoft) e outros líderes da indústria.

O grande tema, como era de se esperar, foi a inteligência artificial (IA). Os CEOs apresentaram uma visão para o potencial transformador dessa tecnologia, ao mesmo tempo em que reconheceram as preocupações de que estariam inflando uma enorme bolha. Em meio a grandes previsões e debates sobre o futuro, também houve tempo para críticas diretas aos concorrentes e até mesmo aos parceiros habituais.

No último episódio do podcast Equity, foram discutidos assuntos relacionados a Davos com Kirsten Korosec e Sean O’Kane.

Kirsten: Algumas das discussões sobre temas como mudanças climáticas, pobreza e grandes problemas globais não estão realmente atraindo grandes públicos. Enquanto isso, na principal avenida de Davos, na Suíça, as maiores fachadas foram transformadas e ocupadas por empresas como Meta, Salesforce, Tata, além de representações de diversos países do Oriente Médio. Creio que a maior delas foi a Casa dos EUA, patrocinada por empresas como McKinsey e Microsoft. Visualmente, o ambiente estava bem diferente.

E então, a presença de Elon Musk chamou a atenção — Sean e eu ouvimos sua participação. Não houve muito o que acrescentar, mas foi interessante vê-lo lá, já que, no passado, ele costumava evitar Davos.

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Anthony: Estávamos tentando destacar o conteúdo tecnológico de Davos e há, sem dúvida, aspectos que merecem destaque. No entanto, é impressionante como, com a IA se tornando uma grande pauta de negócios, é difícil dissociá-la completamente de outras temáticas, como as questões de comércio internacional e política global.

Um dos grandes destaques, pelo menos para nós, foram os comentários do CEO da Anthropic, que criticou uma decisão da administração Trump de permitir que a Nvidia enviasse chips para a China. Trata-se de uma pauta que transita entre tecnologia, comércio e política.

Parece-me que, em termos de conteúdo, os comentários foram consistentes com o jeito irreverente dele, refletindo uma linha interessante no discurso sobre IA: há críticas que se entrelaçam com o intenso hype criado em torno da tecnologia. Uma das frases que utilizou foi que um data center de IA é como um país repleto de gênios. Questionei isso — afinal, como poderíamos enviar todos esses chips para a China se estamos preocupados com ela? Afinal, estaríamos, de fato, enviando um país cheio de gênios para a China e permitindo que eles assumissem o controle.

Sean: Você poderia facilmente preencher um caderno com todas as expressões inusitadas que esses CEOs usaram nesta semana. Outra frase que ficou na minha memória foi quando Satya Nadella passou a chamar os data centers de “fábricas de tokens”, uma bela abstração do que ele acredita ser o real propósito desses centros.

Duas observações realmente se destacaram para mim em meio a todas as declarações feitas por esses CEOs. Primeiro, é notável como eles estavam se provocando — não apenas a Anthropic com a Nvidia, o que já é interessante, já que a Anthropic é uma grande cliente da Nvidia e utiliza suas GPUs, criando uma tensão particular, mas também o fato de vê-los lado a lado, prontos para confrontos de uma forma que não estamos acostumados a ver.

Todos estão disputando a liderança do setor e tentando reter talentos sem gastar de forma insustentável. Essa tensão, tão palpável naquele momento, raramente se manifesta combinada dessa forma.

A segunda observação, relacionada às questões geopolíticas e comerciais, foi a clareza com que esses CEOs deixaram registrado o que acreditam ser necessário para continuar tendo sucesso.

Satya Nadella — que poderia ser interpretado de maneira negativa, embora eu não ache que seja tão desfavorável — basicamente afirmou que “mais pessoas precisam usar essa tecnologia, se não estaremos diante de uma bolha prestes a estourar”. Sua posição distanciava-se, em alguns aspectos, da de Dario Amodei, da Anthropic, já que Nadella foca em conquistar um uso amplo da IA e em garantir que ela seja acessível a diversas comunidades ao redor do mundo, e não concentrada apenas em áreas privilegiadas. Ainda assim, havia um certo recado implícito de que ele não estava totalmente disposto a simplesmente “pedir” por mais usuários.

De maneira semelhante, Jensen Huang, da Nvidia, deixou claro que “não estamos investindo o suficiente nisso e precisamos de mais investimentos para fazer essa tecnologia funcionar”.

Kirsten: Os comentários de Jensen foram interessantes, pois ele abordou o tema da criação de empregos e sugeriu que, em um determinado momento, o crescimento poderá desacelerar, embora ninguém esteja realmente discutindo esse cenário no momento.

Outro ponto válido foi o fato de nunca termos visto todos esses líderes juntos numa mesma sala se provocando de maneira aberta. Geralmente, temos encontros com, por exemplo, Sam Altman ou Satya Nadella isoladamente, mas aqui eles estavam todos reunidos, e isso tornava o cenário ainda mais revelador.