Há um discurso bem popular que é o do “basta querer que você consegue tudo na vida”.

É o mantra da meritocracia.

De um lado há pessoas que consideram esse tipo de pensamento ridículo, por ignorar privilégios ou por tratar a motivação e condição de se fazer ‘qualquer coisa’ como algo simples.

De outro, há quem vive por esse mantra e de fato conseguiu conquistar muitas coisas que vislumbraram na vida.

Mas e então? Isso é uma verdade ou não?

Bom, como tudo na vida, não dá pra generalizar ou ir pelos extremos e provavelmente o caminho do meio faz mais sentido.

Toda verdade, inclusive, é situacional. E aqui não é diferente.

Generalização das experiências

Há um tempo escrevi um texto aqui no blog sobre o que os gurus não te contam. Nesse texto eu fiz uma reflexão sobre algo que acontece quando generalizamos nossas experiências pessoais.

Basicamente, quando temos uma experiência em nossa vida, pensamos que é uma verdade e muitas vezes ignoramos que só é verdade porque há condições.

Aproveitando do tema dos privilégios, eu poderia dizer algo assim:

“Eu fiz o ENEM e tirei uma nota que posso passar em qualquer curso em qualquer universidade pública. Consegui isso porque passei todos os dias do último ano estudando 10 horas por dia. Eu quis, fui lá e fiz.”

E aí, com essa experiência própria, poderíamos dizer a alguém que também quer ou precisa de um notão no ENEM:

“É só você querer. Basta fazer igual eu e estudar 10h por dia.”

Está errado?

Não, mas também não está certo.

O problema aqui é que ao falar isso, estaria partindo do pressuposto que todos tem as mesmas condições que eu tive.

  • A capacidade de poder estudar 10h por dia sem precisar trabalhar, pagar contas, cuidar de outras pessoas, etc.
  • A mesma condição global. Por exemplo, pode ser que exista uma pandemia no mundo que não existia antes.
  • O mesmo histórico. Por exemplo, tive o privilégio de estudar em escolas particulares, provavelmente tive suplementação de ferro quando bebê (um fator importante para o QI), não passei fome, tive apoio das pessoas ao meu redor, etc.
  • A mesma condição emocional. Existem várias coisas na vida que podem nos abalar emocionalmente, em especial como as pessoas ao nosso redor nos encorajam ou desencorajam.
  • Sorte.

Se tudo isso fosse similar entre as pessoas que estão conversando, talvez o mantra “é só querer” poderia funcionar. Faz sentido, afinal. Partindo do mesmo ponto, é muito provável que outra pessoa conseguiria com os mesmos esforços.

No entanto, se essas condições não são parecidas, a conversa é um pouco mais complexa.

Se uma outra pessoa tem, por exemplo, condições parecidas mas não tem uma condição emocional tão boa, teria que estudar 15h por dia e não 10h durante 2 anos e não 1 para conseguir a mesma nota.

Não deixa de ser “basta querer” mas o esforço é significativamente maior.

O limite de cada um

Há um outro fator que eu acho importante, mas que é um pouco abstrato. Tenho pensado bastante numa escala que une toda essa confusão de condições acima. É como se fosse uma escala do nosso limite.

É como sentimos a respeito de nossa própria capacidade de realização em cada momento. Nosso histórico, sentimento de segurança geral, acolhimento, encorajamento de pessoas ao redor, nossas responsabilidades ou obrigações, e até o humor que acordamos um dia podem influenciar nessa escala.

Eu, por exemplo, no presente momento não teria condições de tirar uma nota super alta no ENEM. Mesmo se eu quiser, eu não acho que eu conseguiria pois o conjunto do que é necessário em relação à minha situação atual dá um contraste muito grande.

Tenho que trabalhar para sustentar uma família e não gosto do conteúdo a ser estudado. Só isso já faria o esforço necessário ser algo que vai muito além do meu limite.

Se fosse só um pouco acima do meu limite, até poderia entrar no âmbito do “é só querer”, pois penso que nessa escala sempre tendemos a subestimar nossas capacidades, mas quando é algo tão impensável que está longe do limite, aí é um indicativo que é algo fora do nosso alcance no momento.

Então há coisas fora do nosso alcance?

Como comentei acima, eu acho que há sim. Não necessariamente algo é fora do alcance pra sempre, mas nas condições atuais, sim.

Usando dinheiro, pra simplificar, é a mesma coisa de te perguntar:

  • Você consegue juntar R$ 1000?

Pra muita gente é algo difícil e para outras pessoas bem fácil, mas ainda assim é algo que diria que está no âmbito do “é só querer” pra uma boa parte de nós. Mesmo que demore um pouco, é possível juntando pouquinho a pouquinho.

Mas e se a pergunta é:

  • Você consegue juntar R$ 1.000.000.000,00?

Um bilhão de reais não é algo dentro do alcance de qualquer um. A cada um 1 milhão de “basta querer”, uma pessoa vai conseguir esse um bilhão. Afinal, para se conseguir algo assim é preciso de uma combinação de milhares de fatores e muita sorte – ou então um pai ou mãe já bilionário(a).

Agora imagina o Jeff Bezos (uma das pessoas mais ricas do mundo) falar pra você “basta quere 1B que você consegue”.

Você pode estar pensando que a diferença entre esses valores é muito grande, mas eu imagino que para muitos essa é a sensação quando usamos essa expressão sem levar em conta os contextos diversos.

Vale lembrar que a partir do momento que nossas variáveis mudam, nosso limite muda também. Muitas vezes, inclusive, essas variáveis podem mudar através de nossos esforços, ou seja, “só querendo”. No entanto, como as grande mudanças dependem da combinação de fatores externos com nossas ações, não dá pra dizer que “basta querer” ir mudando aos poucos até o 1B, por exemplo.

O que podemos fazer, no entanto, é o nosso melhor possível em direção aos nossos objetivos e sonhos.

Algo que funciona comigo também é reajustar meus objetivos. Eu me sinto muito mais motivado em conseguir atingir um objetivo menor do que me frustrar por não ter conseguido algo maior.

Frustração me joga pra baixo e me tira confiança. Vitórias me empolgam para ir mais longe, mesmo que devagar.

Faz sentido? Me conta nos comentários abaixo.

Divirta-se!