Ferramentas de IA podem estar prejudicando a habilidade dos médicos?

Nos últimos anos, diversos estudos mostraram como as ferramentas de inteligência artificial têm aprimorado o trabalho dos médicos. Elas auxiliam na detecção de câncer, possibilitam diagnósticos mais rápidos e, em alguns casos, ajudam a prever com maior precisão quem está em risco de complicações.

No entanto, pesquisas recentes sugerem que a colaboração com a IA pode ter um custo oculto. Um estudo publicado na Lancet Gastroenterology and Hepatology revelou que, após apenas três meses utilizando uma ferramenta de IA desenvolvida para identificar crescimentos pré-cancerosos durante colonoscopias, os médicos passaram a ter um desempenho significativamente inferior na detecção desses crescimentos quando realizavam os exames sem o auxílio da tecnologia.

Esse é o primeiro indício de que a dependência de ferramentas de IA pode comprometer a capacidade dos profissionais de realizar procedimentos básicos sem auxílio tecnológico, um fenômeno denominado “deskilling”.

“Esse é um processo bidirecional. Fornecemos à IA dados que afetam seus resultados, mas ela também parece influenciar nosso comportamento”, explicou o Dr. Omer Ahmad, gastroenterologista do University College Hospital London, que publicou um editorial acompanhado do estudo.

O estudo teve início de maneira semelhante a outros ensaios clínicos envolvendo IA na medicina. Médicos de quatro centros de endoscopia na Polônia passaram a utilizar uma ferramenta de IA que identificava e demarcava, em tempo real, áreas suspeitas durante as colonoscopias. Diversos outros ensaios clínicos de grande porte já haviam comprovado que essa tecnologia aumentava significativamente a taxa de identificação de crescimentos pré-cancerosos — um indicador amplamente aceito do desempenho dos endoscopistas.

Entretanto, ao contrário de estudos anteriores, os pesquisadores avaliaram o que ocorria quando a ferramenta era retirada. Nos três meses que antecederam a introdução da tecnologia, os médicos identificavam crescimentos em cerca de 28% das colonoscopias. Após o uso da ferramenta, a taxa de detecção caiu para aproximadamente 22%, ficando bem abaixo do patamar inicial.

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